A Região possui mais de duas décadas de trabalho na avaliação dos impactos das alterações climáticas, destacou Pedro Garrett, cofundador da empresa portuguesa 2adapt, especializada em adaptação climática e avaliação de riscos, numa conferência a decorrer na Universidade da Madeira.
Segundo dados apresentados pelo orador, “as projeções climáticas mais recentes apontam para uma redução média da precipitação entre 24% e 65% até 2100, aumento da temperatura média até 2ºC em 2050 e entre 3,1ºC e 4,9ºC até ao final do século, sobretudo nas cotas mais elevadas, além do crescimento da frequência de precipitação extrema e fenómenos de seca”.
De acordo com um comunicado alusivo a esta iniciativa, promovida pela Ordem dos Engenheiros – Região Madeira, o conferencista recordou ainda os impactos do temporal de 20 de fevereiro de 2010 e comparou-os com os episódios registados a 6 de junho de 2023.
Segundo explicou, os cerca de 120 milhões de euros investidos em obras de adaptação, drenagem, gestão de encostas, sistemas de alerta e monitorização permitiram aumentar significativamente a resiliência do território e reduzir danos, mesmo perante eventos de precipitação superiores.
O keynote speaker alertou para a aceleração das alterações climáticas e recordou que o planeta já atingiu cerca de 1,4ºC de aumento da temperatura média global em 2025, ultrapassando mesmo os 1,5ºC na média dos últimos três anos — um valor considerado crítico pela comunidade científica desde o Acordo de Paris.
Destacou ainda que 90% do excesso de energia provocado pelo aquecimento global está a ser absorvido pelos oceanos, comparando este impacto energético à libertação de “quatro bombas de Hiroshima por segundo” ao longo dos últimos 25 anos. Segundo explicou, é precisamente este desequilíbrio energético que intensifica fenómenos meteorológicos extremos.
O encontro, o terceiro realizado pelo atual Conselho Diretivo da RAMOE, voltou a assumir como prioridade aproximar a engenharia das populações e promover o debate público sobre desafios estruturais da Região.
A presidente da RAMOE, Beatriz Jardim, sublinhou que os fenómenos extremos recorrentes na Madeira devem estar no centro da avaliação de riscos, do planeamento territorial e da preparação das infraestruturas. “As tempestades são inevitáveis, mas muitas vulnerabilidades podem ser evitáveis”, afirmou.
Foram também apresentadas ferramentas tecnológicas desenvolvidas pela 2adapt, como a Riskcore e a Adapt to Risk, destinadas a apoiar decisões informadas na identificação de vulnerabilidades associadas a cheias, inundações e deslizamentos de terras.