(Des)vinculação em tempos de pandemia

No contexto pandémico atual, as recomendações mundiais de distanciamento social, afastamento físico e a minimização de contatos (de forma a evitar a transmissão do coronavírus SARS-COV-2), desafiam a saúde mental individual e coletiva.

Não é novidade que o homem é um ser social e que a sua felicidade está intimamente ligada à convivência e à partilha com o outro. Contudo, esta necessidade de convivência não é, nem pode ser, indiscriminada! É, inevitavelmente, específica e dirigida aos nossos entes queridos, aos quais estamos vinculados, pela proximidade (física) consistente e pelo conforto (emocional) que nos proporcionam. É que, ter o apoio de quem mais gostamos, e a quem estamos fortemente ligados, ajuda-nos a lidar de forma mais positiva perante as situações mais complicadas da vida (pandemia, luto, doença, desemprego, guerras mundiais, etc.).

A este propósito, relembro que, em 1948, na altura do pós-guerra (Segunda Guerra Mundial - 1939-1945), a Organização Mundial de Saúde, preocupada com as crianças institucionalizadas na Europa (órfãs ou abandonadas pela família), encomendou a realização de um relatório sobre os efeitos da perda e da separação no desenvolvimento infantil. John Bowlby (1907-1990), médico e psicanalista inglês, incumbido dessa missão, elaborou a monografia intitulada “Cuidados Maternos e Saúde Mental” (1951). Este parecer teve um enorme impacto, pois revelou que a carência de cuidados maternos pode levar ao estabelecimento de relações afetivas superficiais, à ausência de atenção e concentração e, até, à ausência de reação emocional. O relato destes efeitos foi convergente com os resultados dos estudos de René Sptiz (1887-1974), médico e psicanalista austríaco que, uns anos antes, se tinha debruçado sobre os efeitos da deprivação maternal e emocional nas crianças.

A partir de 1950, John Bowlby desenvolveu a teoria da vinculação. A vinculação é um comportamento inato e vital para a sobrevivência do bebé, tal como a alimentação ou o sono. O bebé dirige os seus comportamentos de vinculação (sorrir, chorar, agarrar, seguir com o olhar) às figuras de vinculação (cuidadores) para estabelecimento de uma relação privilegiada, o vínculo. Essa figura adulta oferece, idealmente, uma “base segura” que reconforta a criança quando esta revela medo ou mal-estar. Este modelo relacional mãe/pai/cuidador-bebé é interiorizado pela criança, que, por sua vez, o reproduzirá com as pessoas significativas, que encontrará ao longo da sua vida.

Esta teoria de John Bowlby teve implicações nas políticas para a infância. Promoveu mudanças nas práticas hospitalares pediátricas, tornando possível e até encorajando a presença dos pais junto dos filhos e acompanhamento a bebés prematuros nas unidades de cuidados intensivos. Foi também legislado o prolongamento das licenças de maternidade, com o intuito de facilitar uma vinculação segura entre o bebé e o principal cuidador.

Nesta altura de pandemia, e face às restrições impostas pelos planos de contingência, não nos podemos esquecer, e enaltecer, o esforço e a resiliência das crianças e jovens institucionalizados na Madeira, impossibilitados de receber visitas/contactos de familiares e idas a casa ao fim de semana, desde o início de janeiro. Neste contexto, ansiamos todos que a situação pandémica melhore, o que permitirá, a esta população infantojuvenil, a tão desejada reunião familiar, promotora da vinculação e saúde mental (estabilidade emocional e comportamental).