MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Nutricionista

9/03/2026 08:00

A Maria acordou hoje com o som das notificações no telemóvel. Era dia 8 de março de 2026. “És uma guerreira”, dizia uma mensagem. “Feliz Dia da Mulher”, dizia outra, com o desenho de uma flor cor-de-rosa. Ela sorriu para o ecrã, aquele sorriso aberto e redondo que toda a gente conhece e adora. E no trabalho, a Maria é a colega que está sempre bem-disposta, é a que conta piadas, a que parece não ter problemas. As pessoas olham para ela e pensam que, por ser gorda, ela é naturalmente alegre e bem resolvida. Mas na realidade, esse riso é uma espécie de disfarce, uma máscara que ela, todos os dias, coloca para que ninguém perceba o vazio enorme que ela sente por dentro.

A verdade é que a vida da Maria é uma batalha que ninguém vê. Ela tenta. Ela esforça-se! Já fez todas as dietas que aparecem nas revistas, já passou fome e já se inscreveu no ginásio vezes sem conta. Mas o seu corpo parece estar exausto e a sua mente esgotada. Entre o trabalho, a casa e a pressão de ter de ser perfeita, o stress toma conta de tudo. O corpo, cansado e sob pressão, muitas vezes, simplesmente não responde aos sacrifícios que ela faz. É uma luta inglória contra a biologia e contra o cansaço da alma.

Pior é quando o dia corre mal ou quando alguém lhe lança aquele olhar de julgamento — aquele olhar que diz “Esta gorda não sabe fechar a boca.” — a Maria sente um aperto e tristeza no peito que não se explica. Para calar essa dor e essa ansiedade, ela procura conforto na comida. É um prazer rápido que acaba logo e que traz atrás de si uma culpa gigante e uma vontade enorme de comer, outra vez, para esquecer que falhou. É uma espiral, um círculo que nunca acaba e que a deixa a sentir-se cada vez mais pequena, apesar de o corpo mostrar o contrário.

Precisamos de parar de julgar a Maria. A sociedade exige que a mulher tenha um corpo de moldura, mas esquece-se de que a beleza não tem um número único na etiqueta da roupa. Existe uma discriminação silenciosa que dói mais do que qualquer balança. Aquelas camadas de gordura que o mundo critica são, muitas vezes, uma doença não diagnosticada ou camadas de vida acumulada, de emoções que não foram ditas e de uma proteção contra um mundo que é duro demais. São camadas de uma história que merece ser lida com carinho, não com nojo ou desprezo. A Maria não é apenas um número de quilos; ela é uma mulher inteira, com sonhos e medos que vão muito além da sua imagem.

Lutar sozinha é um fardo pesado demais para qualquer pessoa carregar.

Este ano, o Dia Mundial da Obesidade trouxe uma mensagem clara: “Oito bilhões de razões para agir contra a obesidade”. Esta mensagem, convida-nos a olhar para além do óbvio e a reconhecer os múltiplos fatores — biológicos, genéticos e emocionais — que influenciam o peso de uma pessoa. Falar sobre obesidade significa combater o estigma que impede tantas mulheres de procurar tratamento e ajuda! É preciso transformar o julgamento em suporte e a vergonha em conhecimento. O sistema de saúde e a própria sociedade têm o dever de criar ambientes onde o cuidado seja acessível e humano, despido de preconceitos de imagem.

Esta ideia liga-se perfeitamente ao Dia da Mulher. Celebrar a mulher é também respeitar o seu corpo, a sua essência e a sua história, acabando com o preconceito e protegendo a sua saúde e dignidade em todas as fases e formas da sua vida.

Que neste dia possamos olhar para a Maria com mais empatia e menos crítica, percebendo que a maior força de uma mulher é o direito de ser cuidada, ouvida e respeitada em todas as suas formas.

Ser mulher é ter o direito de ocupar todos os espaços do mundo com o tamanho exato da sua alma!

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