MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

7/05/2026 07:35

Quase dois meses depois, continua esta magnífica e desafiante caminhada de um pai. Dizem-nos que ter um filho é o momento mais bonito da vida. E é. Mas esquecem-se muitas vezes de dizer que também pode ser o mais exigente, o mais confuso e o mais cansativo. Os primeiros quase dois meses de paternidade vivem-se num equilíbrio estranho entre amor absoluto e sobrevivência diária.

Antes de ser pai, imaginava noites mal dormidas. Não imaginava, porém, o impacto real de viver em alerta constante. O relógio deixa de existir. O dia mistura-se com a noite. E, ainda assim, no dia seguinte, continuamos. Porque há alguém que depende totalmente de nós.

Há também o silêncio das dúvidas. Estamos a fazer bem? O bebé está confortável? Está a comer o suficiente? Porque chora agora? Ninguém fala verdadeiramente sobre a pressão invisível que acompanha um pai (e é importante olhar para os dados sobre o declínio da saúde mental logo após a parentalidade, tanto para pais, como para mães). Queremos ser fortes, presentes, pacientes e úteis, tudo ao mesmo tempo, enquanto tentamos perceber quem somos nesta nova versão da vida.

A sociedade ainda vende muito a ideia do “pai ajudante”, como se a responsabilidade principal pertencesse apenas à mãe. Mas a paternidade moderna exige muito mais do que apoio ocasional. Exige presença emocional, disponibilidade e partilha real. Exige estar nas noites difíceis, nas consultas, nas fraldas, no colo que tenta acalmar sem sucesso aparente.

E isso implica aprendizagem constante. Implica falhar (e vamos mesmo falhar). Implica descobrir que nem sempre sabemos interpretar um choro ou perceber imediatamente o que o bebé precisa.

Também ninguém nos prepara para o impacto emocional de ver a mulher que amamos a atravessar uma transformação tão intensa. Há cansaço, recuperação física, hormonas, fragilidade e, ao mesmo tempo, uma força impressionante. O casal muda inevitavelmente. O romantismo deixa de estar nos grandes gestos e passa a existir nas pequenas coisas: um café preparado em silêncio, uma hora extra de descanso oferecida ao outro, um “vai dormir que eu fico aqui”.

E no meio de toda esta exaustão acontece algo extraordinário: o amor cresce de forma quase inexplicável. Cresce naquele olhar às três da manhã. Na mão minúscula agarrada ao dedo. Num suspiro tranquilo depois de muito choro. No primeiro sorriso que talvez ainda seja involuntário, mas que sentimos como a maior recompensa do mundo.

Os primeiros dois meses ensinam-nos uma verdade simples: um pai não nasce pronto. Constrói-se. Entre erros, medo, insegurança e noites difíceis. Não há manual de instruções (como já abordei no meu artigo do mês passado), nem fórmula perfeita. Há apenas tentativa, presença e amor diário.

E talvez seja exatamente aí que está a beleza mais honesta da paternidade: perceber que ninguém está verdadeiramente preparado, mas que, mesmo cansados, imperfeitos e cheios de dúvidas, encontramos sempre maneira de continuar. Porque amar uma filha ou filho é, muitas vezes, aprender a sobreviver enquanto se cresce com eles.

Partilho a minha caminhada, na esperança que exista uma maior abertura, troca de experiências e consciencialização do papel do pai. Porque nem todos tiveram a sorte de ter um pai presente.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Acha que Portugal não devia participar na Eurovisão, em protesto pela presença de Israel?

Enviar Resultados
RJM PODCASTS

O I Fórum Regional Erasmus+ pôs em evidência o papel que a Madeira tem tido na aplicação deste programa. Secretária regional exorta a mais candidaturas,...

Mais Lidas

Últimas