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Artigo de Opinião

Doutorada em História / Investigadora

7/05/2026 07:40

Comecei a juntar letras e a formar palavras, muito antes de entrar na escola. Quanto maiores, as palavras, mais me interessava por elas. Menos sossego tinha a minha avó Cidália. Foi com ela, para desespero da minha professora Alice, que descobri o mundo das letras. Um tormento, para quem, como eu, queria aprender ‘coisas’. Outras, que não juntar e soletrar palavras. Nessa altura, ainda que bem me lembre, não se cronometrava o número de palavras que uma criança, a frequentar, como eu, a primeira classe, conseguia ler por minuto. Não que me lembre. Isso sim, seria marcante para mim. A minha primeira classe não foi de grandes descobertas. Ainda me causa agonia lembrar-me dos inícios e finais das manhãs. Antes da saída para o recreio. Muito inventava que fizesse, para me entreter a passar a manhã, sentada na minha carteira. Era assim que se designava tradicionalmente, a mesa e o banco onde nos sentavam nas salas de aula. Eram feitos com tampos inclinados e assentos em madeira maciça, impecavelmente envernizados, em cor escura, com uma única estrutura em ferro, julgo que fixada ao chão. Muitas nódoas negras fiz nos joelhos, sempre que entrava e saía, de cabeça no ar, a tentar apanhar algo de novo. Outras ‘coisas’.

Esta semana, na segunda e terça-feira, decorreu, no Porto, na Fundação de Serralves, mais uma edição da conferência anual EDULOG, sob o tema “Preparar o Futuro - Políticas e Práticas de Promoção da Literacia Baseadas em Evidência”. Neste encontro, os vários congressistas convidados, debateram aspetos relacionados com os desafios da Literacia, os resultados do PISA e, entre outros, os resultados do PIRLS.

Muito sucintamente, o que de lá se pode concluir, e é um facto, é de que nas sociedades modernas, a capacidade de ler e de escrever (bem) é o alicerce de todo o percurso escolar. Dito de outra maneira, sem o domínio destas competências, ler e escrever bem, as nossas crianças ficam privadas de quase todas as oportunidades que a escola tem para oferecer. E isto, só por si, já daria muito em que se pensar. Outro facto, não menos importante, tem a ver com os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Segundo estes, que avaliam a compreensão da leitura aos 15 anos, até 2015, a literacia dos nossos alunos progrediu de forma consistente, porém, e desde então, a tendência inverteu-se. Quanto aos resultados do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), promovido pelo Instituto de Avaliação Educativa, I.P., sob a tutela do Ministério da Educação, que avaliou a leitura aos 9 e 10 anos, concluiu-se que cerca de 25% das crianças portuguesas revelaram dificuldades, e 6% nem sequer alcançaram um nível mínimo de desempenho. Os resultados apresentados na conferência anual do EDULOG, evidenciaram progressões consistentes no desenvolvimento das competências de leitura e escrita ao longo do tempo, mas também desigualdades fortemente associadas ao contexto familiar, nomeadamente no que ao fator ‘casa’ diz respeito, uma vez que se conclui que o contexto socioeconómico e cultural das famílias é o principal determinante do sucesso. Quando se isola esse fator, a ideia de que o ensino privado é superior ao público esvazia-se, cai por terra, pois os resultados tornam-se muito semelhantes. Ou seja, estamos perante diferenças muito reduzidas, entre escolas públicas e privadas quando se considera esse contexto. Estas são as principais conclusões que muito resumidamente apresentaram os autores do estudo coordenador por Isabel Leite, presidente do Conselho Consultivo da EDULOG.

Mais uma vez, e tendo em conta as várias realidades culturais, que trouxeram cores e cheiros novos, às nossas salas de aula, a aposta deve continuar no sentido de se mitigar as desigualdades sociais, tendo em conta que as diferenças entre escolas (públicas e privadas) são residuais, quando se ajusta o contexto socioeconómico. A recomendação é que as escolas públicas foquem os seus recursos em programas de apoio extra para alunos, cujas famílias tenham menos capital cultural, nivelando as oportunidades logo nos primeiros anos de escola. Afinal, as diferenças de resultados entre escolas públicas e privadas decorrem muito das diferenças entre as habilitações dos pais e não do tipo de estabelecimento, se público ou privado. Este é um fator de peso, que importa revisitar. Para refletirmos. Em Português.

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