“os pés cansados continuam a sonhar com viagens”
(José Tolentino Mendonça)
Andamos obcecados pelo destino. Desde cedo. Desde o momento em que, sem sabermos nada da vida, nos perguntam o que queremos ser, onde queremos chegar, quanto queremos ganhar. Ninguém nos fala do caminho, desse lugar que a vida nos estende para passar e que os nossos passos vão marcando.
O destino, por mais bonito que seja, é instante. O caminho, não. É construção. É no chão percorrido que os nossos pés aprendem o peso do corpo e que os olhos se ajustam à luz e à sombra, ao brilho e às lágrimas. O caminho, não é apenas o intervalo entre o ponto de partida e o de chegada. É a vida inscrita no ritmo dos nossos pés, conforme o tempo, conforme as pedras, conforme os desvios que o caminho assume, conforme. E vamos adaptando o andar. Às vezes, andamos mais depressa, outras mais devagar; paramos para contemplar uma flor ou para acompanhar quem caminha ao nosso lado; estendemos a nossa mão vazia ou oferecemos o nosso braço ao cansaço de quem vai connosco ou, simplesmente, pousa o seu olhar no nosso.
É o caminho que nos ensina, porque o caminho é feito do tempo que dura a vida de cada um. É feito da promessa do destino que é aquilo a que chamamos Esperança.
O caminho é um artesão paciente. Ele molda nossos medos até que se tornem coragem, transforma quedas em consciência, cansaço em resistência. Quando tropeçamos, aprendemos a olhar para o chão e redescobrimos o céu quando nos levantamos. Entre um passo e outro, vamo-nos tornando quem somos e vamo-nos preparando para o que vai vir.
O caminho importa porque é ele que nos constrói enquanto o percorremos. Cada passo é uma escolha, cada escolha é uma forma de esculpir a própria história. E talvez viver seja exatamente isso: aceitar que a grandeza não está em alcançar, mas em seguir — com o coração aberto, os pés atentos e a coragem humilde de continuar.