A afluência excessiva às Urgências do Hospital Dr. Nélio Mendonça, motivada em grande parte por situações não urgentes, revela muito mais do que um problema de organização dos serviços de saúde. Revela, sobretudo, um problema de consciência coletiva. Um desafio ético que interpela a forma como vivemos em comunidade e como entendemos a responsabilidade para com o outro.
Os serviços de urgência existem para responder ao imprevisto, ao grave, ao inadiável. São o lugar onde o tempo vale vidas, onde cada minuto pode ser decisivo. Quando esse espaço é ocupado por situações que poderiam ser resolvidas nos centros de saúde, não estamos apenas a “escolher o caminho mais fácil”. Estamos, consciente ou inconscientemente, a retirar espaço, atenção e tempo a quem realmente precisa.
Não se trata de desvalorizar o sofrimento de ninguém. A insónia, a ansiedade, o desconforto, a dor emocional também são reais. Mas nem todo o sofrimento é urgência hospitalar. Nem toda a fragilidade exige sirenes, macas e corredores sobrelotados. Saber distinguir isso é um ato de maturidade cívica.
Quando um terço dos utentes recorre às urgências sem necessidade clínica, estamos perante uma falha de literacia, não apenas em saúde, mas em ética social. Falta-nos aprender a “saber viver em comunidade”. E viver em comunidade implica reconhecer que os nossos atos têm impacto nos outros.
Cada ida desnecessária às urgências é um lugar ocupado. É uma espera prolongada para quem chega com dor intensa, com risco de vida, com medo real. É um profissional de saúde mais exausto. É um sistema mais pressionado. É um ambiente mais tenso. E há aqui um paradoxo inquietante: muitas vezes, quem menos sofre é quem mais reclama. Quem está ali por conveniência exige rapidez. Quem está ali por necessidade, espera em silêncio. Esta inversão revela uma cultura onde o “eu” se sobrepõe ao “nós”, onde o conforto pessoal se torna mais importante do que a justiça coletiva.
Vivemos numa era de múltiplas literacias: digital, emocional, financeira, ambiental. Mas talvez esteja a faltar, de forma urgente, a literacia da responsabilidade. A capacidade de perguntar: “Preciso mesmo de estar aqui?”, “A minha presença pode prejudicar alguém?”, “Há outra forma mais adequada de procurar ajuda?”. Usar corretamente os serviços públicos é um ato ético. É uma forma de respeito pelos profissionais que os mantêm a funcionar e pelas pessoas que deles dependem em momentos críticos. Não é apenas uma questão de regras. É uma questão de valores.
Também é verdade que o sistema deve continuar a investir na proximidade, na acessibilidade dos centros de saúde, na informação clara à população. Uma comunidade informada é uma comunidade mais consciente. Mas nenhuma estrutura funciona se não houver corresponsabilidade. A saúde é um bem comum. Não pertence apenas a quem a usa num determinado momento. Pertence a todos. E cuidar do bem comum implica, por vezes, abdicar da comodidade em nome da justiça.
Ir às urgências “porque é mais rápido”, “porque é mais seguro”, “porque lá fazem exames” pode parecer uma decisão individual legítima. Mas, em contexto coletivo, torna-se um gesto com consequências. Um gesto que pode custar caro a alguém invisível na fila.
Talvez esteja na hora de repensarmos o significado de cidadania. Não como um conjunto de direitos automáticos, mas como uma rede de deveres partilhados. Ser cidadão é também saber esperar, saber encaminhar-se, saber confiar nos percursos adequados. Saber viver em comunidade é compreender que não estamos sozinhos na fila da vida. Que o nosso desconforto não é maior do que a dor do outro. Que o nosso tempo não vale mais do que o tempo de quem luta por respirar. Uma sociedade ética constrói-se nestes pequenos gestos.