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Artigo de Opinião

9/03/2026 08:00

A Autonomia da Madeira não termina no mar.

Esta afirmação política poderia, por si só, definir a Autonomia Regional. Porque, apesar de a nossa geografia ser insular, a nossa identidade e a nossa vocação são efetivamente globais. É essa dimensão que garante o nosso sucesso.

Se dúvidas houvesse, a ideia ficou bem vincada na Conferência Açores–Madeira sobre os “50 Anos de Autonomia nas Comunidades”. Ficou claro que as autonomias insulares não se esgotam no território físico das Regiões: estendem-se à sua extensão humana no mundo.

No encontro, com sessões nos palcos atlânticos de Ponta Delgada e do Funchal, reafirmou-se também uma verdade essencial: a Autonomia, determinante para o progresso das Regiões e para o sucesso das nossas comunidades, não nos foi oferecida. Foi conquistada. Exigiu visão estratégica, coragem política e capacidade para enfrentar centralismos profundamente enraizados na sociedade e na classe política da metrópole. E continua a exigir das lideranças regionais ousadia e a consciência de que nunca nada nos será dado. Governar estas ilhas é, também, governar distâncias.

Nas duas sessões ficou igualmente evidente que, durante séculos, os nossos emigrantes foram reduzidos a números, a remessas e a meras estatísticas. Só com o advento da Autonomia esse paradigma começou verdadeiramente a mudar. A Autonomia trouxe desenvolvimento regional, mas trouxe também algo mais profundo: dignidade. Reconheceu identidade e pertença às nossas comunidades. Transformou a diáspora em ponte económica, em diplomacia informal, em agente cultural e de promoção turística, em capital humano estratégico.

E se a Autonomia reconheceu às nossas comunidades a dignidade que a Ditadura e o centralismo lhes negaram, também as comunidades foram essenciais para o sucesso do processo autonómico. Contribuíram de forma indelével para o nosso progresso económico, social e cultural. Muito do investimento estrangeiro realizado na Região ao longo destes 50 anos tem origem nas nossas comunidades, que ainda hoje continuam a investir e a contribuir para o enriquecimento coletivo. São parte integrante da Madeirensidade, não apenas por razões de identidade genética, cultural e afetiva, mas também porque, mesmo vivendo longe, mantêm interesses económicos na Região.

Mas não falámos apenas de passado. A diáspora é também futuro. E esse futuro coloca desafios concretos.

A Madeira de hoje já não expulsa os seus filhos por falta de oportunidades. Essa é uma vitória da Autonomia. Mas significa também que muitas comunidades dependem agora das segundas e terceiras gerações.

E como a identidade não se herda por inércia, exige políticas ativas: ensino da língua, programas culturais, intercâmbios académicos, experiências de aproximação que permitam aos jovens luso-descendentes sentir a Madeira como sua. Não como uma memória distante, mas como uma pertença viva. Olhamos para eles como madeirenses, mas é igualmente fundamental que eles próprios se sintam madeirenses.

O segundo desafio é associativo. As associações continuam a ser a espinha dorsal da vida comunitária. São espaços de voluntariado, de coesão social e de afirmação cultural. Devem adaptar-se aos novos tempos, sem perder o foco essencial: a promoção da identidade madeirense.

O terceiro desafio é político. Os emigrantes são cidadãos de pleno direito. A democracia autonómica só será plenamente coerente quando integrar de forma mais estruturada aqueles que estão fisicamente longe, mas permanecem ligados jurídica e afetivamente à Região. Facilitar o voto no estrangeiro, melhorar plataformas digitais e refletir sobre mecanismos de representação nas Assembleias Legislativas Regionais são passos naturais de maturidade democrática.

A cidadania não pode esgotar-se nestas duas pequenas ilhas povoadas por 250 mil almas quando a Madeirensidade se estende por um universo de cerca de um milhão de pessoas.

Falar hoje de “Madeira Global” é reconhecer que a Região se projeta através das suas comunidades. É capital humano na ciência e na tecnologia. É rede empresarial. É promoção turística espontânea. É influência cultural. É desenvolvimento social, cultural e económico.

Por isso, as prioridades políticas para os próximos anos não podem ser meramente simbólicas. É necessário continuar a desenvolver políticas públicas estruturantes e evitar a mera retórica identitária, terreno fértil para as parcas propostas apresentadas pela oposição madeirense para a área da Diáspora.

Se queremos comunidades vivas, participativas, representadas e respeitadas daqui a cinquenta anos, temos de decidir agora que modelo de ligação queremos construir. mais participação; mais representação; mais mobilidade de ideias, de investimento e de conhecimento; mais pertença; mais identidade; mais equidade entre quem cá está e quem dá à Madeira dimensão global.

Não tenho dúvidas: este não é apenas o futuro querido, é o futuro de que precisamos. E é um futuro para o qual não podemos deixar de trabalhar!

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