Às vezes digo que naquele tempo é que era bom. Que saborosas seriam as conversas à volta do lar, o lume aceso, o frio na rua, calor lá dentro a escorrer pelas paredes! Mas tenho de reconhecer que, no Inverno de meados do século XX, era um tempo triste, com poucos arranjos e sem nenhuns haveres nas casas. Uma pessoa no tempo da chuva passava agruras dolorosas de aturar. Tudo de feio chegava: constipações, gripes, bronquites, pneumonias, doenças reumáticas e cardíacas. “Não te acauteles com o capote nem te resguardes, que depois tu é que vais gemer a pastilha!” O outro respondia “Qual capote, qual carapuça! Tenho lá capote! Estás a caçoar comigo!” As roupas eram poucas ou nenhumas, o calçado também. As mulheres andavam por casa com poucos agasalhos, as canelas à vista, porque não havia nenhuma que se atrevesse a vestir calças compridas, nem, coitadas, as tinham lá sequer na sua indumentária! Um par de meias velhas e largas do marido faziam as vezes, ao menos serviam para não entresilhar os pés e sempre davam um calorzinho dentro dos sapatos escabaçados de chinelar por casa. Como é que aquela gente conseguiu fazer uma casa e aldrabar uma casinha no poio, comprar os livros e cadernos aos filhos, mandá-los para a escola e irem no horário ao Campo da Barca levar as vacinas ou fazer o teste do BCG e ainda fazer o val das compras da semana na venda do senhor Roberto, tudo assentado no rol para pagar no fim do mês? Como é que aquela gente conseguiu os seus terreiros airosos cheios de flores, com tudo fresco e arrumado por dentro e por fora das suas casinhas, se vivia entresilhada com o frio? Gente que não se queixava, que tinha palavra de honra para dar, selar contratos e compromissos com apertos de mão, isto tirando o que é reles dentro de um ser humano, porque todos nós temos o bom e o mau no nosso coração.
Minha mãe foi a penúltima filha do avô Soisa e teve muitos sobrinhos desde tenra idade. Um deles, que eu não conheci, porque morreu jovem, chamava-se Arlindo e era filho do tio Manuel, irmão de minha mãe, quase 20 anos mais velho do que ela.
Ora, Arlindo sofria muito da garganta. Minha mãe às vezes perguntava à cunhada “Quando é que Arlindo vai ao doutor por causa da garganta?”, ao que ela respondia “A garganta de Arlindo está da mão de Manuel”, que era o mesmo que dizer que a responsabilidade não era dela, mas sim do marido. As minhas primas mais velhas dizem que ele sofria também de coração, por isso morreu cedo.
Meu primo Arlindo era alto e magro e vinha descalço a casa da nossa avó Gusta, que era na verdade a avó Augusta. Minha mãe tinha pena dele e perguntava-lhe sempre “Arlindo, o que foi para o teu almoço?” Um dia, ele desconsolado respondeu “Tia, foi uma lasquinha de milho frio. Pois olhe, se eu frio tinha, ainda mais entresilhado fiquei.” Claro que minha mãe disse assim ao sobrinho “Dissesses a tua mãe para aquecer o milho na frigideira!” O crianço, sabido, percebeu tudo e levou à mãe o recado. Quando noutro dia, a tia lhe perguntou “O que foi para o teu almoço?”, o crianço, ensaiado de casa, respondeu “Casca de tremoço e a ceia foi furadores para meter no cu de quem é perguntador.” Minha mãe riu muito com o passo da criatura e percebeu a reprimenda.
O primo João Luís também tinha coisas boas. Nesse tempo triste, ele igualmente andava descalço. Em casa d`avó Gusta, as tias, por baboseira, lavavam-lhe os pés na banheira de zinco com água morninha, à noitinha, depois da retoiça pela ieira a jogar futebol com uma bola de trapos. O pior era que depois do banhinho ele ia a pé, descalço, pelas pedras fora a caminho de casa.
- Ah João Luís, tu vais por í fora descalço, vais sujar os pés – dizia a senhora Bega, que não se tirava da casa d`avó Gusta.
- Eu chego a casa e passo um paninho com água na sola dos pés antes de ir para a cama – respondia o gaiato.
- Água fria ou água quente?
- Entresilhado por entresilhado, pode ser com água fria...