É preciso criar um certo mistério, pensou o escritor, qualquer coisa que introduza a incerteza na narrativa ou que remeta a história para um provável final trágico. Mas o quê?, pensou ele, enquanto folheava o semanário Savana, no dia em que regressou a Moçambique, após uma curta viagem a Portugal, 25 de janeiro de 2010, há tanto tempo.
O quê?, pensava ele. O quê?
O exemplar datava de 15 de janeiro e o escritor estava distraído a passar as folhas, até que se deparou com a morte de uma rapariga chamada Anita Domingos, no rodapé da página 28.
Dizia o seguinte: “Anita Domingos faleceu. Kok Nam, Fernando Lima, Paola Rolleta, Anabela Adrianopoulos e Amélia Monteiro comunicam o desaparecimento súbito da sua amiga Anita Domingos esta segunda-feira, 11 de janeiro. Todas as mortes são dolorosas, mas custam-nos mais aquelas dos que nos estão no coração e quando sentimos que da vida e do convívio nos foi sonegado um pedaço de luz. À família enlutada apresentamos as nossas sentidas condolências.”
Ao lado, na página 29, vinha um artigo intitulado “A última sessão”, da autoria da falecida, e, no final desse artigo, havia uma nota, em itálico e a negrito, a explicar que se tratava de um “comentário editado retirado do blog GAYA, animado pela autora”, acrescentando que “a fase é pretérito porque a Anita nos deixou extemporaneamente esta semana, deixando uma mágoa profunda em muitos de nós.”
O que chamara a atenção do escritor para aquelas páginas do Savana fora a fotografia de Anita, que acompanhava a notícia da sua morte. Mostrava o rosto de uma rapariga bonita e moderna, provavelmente educada na Europa, uma rapariga sorridente e cheia de vida, talvez ainda na casa dos vinte anos. Isto fê-lo estremecer.
A fragilidade do ser humano debaixo do sol.
O escritor ficou a matutar na morte de Anita, ou melhor, ficou a matutar sobre a forma como o Anjo da Morte terá aberto as asas sobre ela, na segunda-feira, 11 de janeiro de 2010. Talvez tenha sido um acidente, ou um homicídio, ou uma doença-relâmpago.
Imaginou-a em qualquer uma destas circunstâncias. Imaginou o terrível instante em que a sua vida acabou e a possibilidade de ela se ter apercebido disso. A angústia do adeus definitivo. E continuou a pensar uma série de lugares-comuns e também de lugares-incomuns sobre a morte, até que perdeu por completo o sentido das palavras dentro do pensamento.
Então, ficou triste e sentiu medo.
[...]
– Esteve a fazer o livro esta tarde? – Perguntou Inês, a companheira do escritor em África, e desatou a rir.
Sempre que falavam do livro, ela desatava a rir, como se não acreditasse no valor da escrita, mas isso nunca perturbava o escritor. Antes pelo contrário, ele ficava fascinado ao ver os maravilhosos dentes de Inês, uns dentes perfeitamente arrumados e alvíssimos, ofuscantes no contraste com a pele negra.
– Fez o quê no livro? – Insistiu.
– Fiz coisas de meter medo – disse ele. – Pelo menos era essa a minha intenção, mas se calhar eu é que fiquei com medo.
– Falou de vampiros? Eu tenho muito medo de vampiros! – Disse ela.
– Como é que você pode ter medo de vampiros, se eu próprio sou vampiro?
Inês deu um salto para trás e perdeu o sorriso, a sério, perdeu mesmo o sorriso.
– Não começa com isso – pediu.
– Isso o quê? Eu já te expliquei tantas vezes por que me faltam estes dentes aqui. Arranquei-os. Eu era vampiro, mas não gostava de andar por aí a morder pessoas e a beber sangue. Por isso, arranquei os dentes.
– Os dentes dos vampiros não são esses – disse ela.
– Você pensa que é como nos filmes, aqueles dentes direitinhos. Na vida real, os dentes dos vampiros nascem doutra forma, assim às três pancadas, uns mais para dentro, outros mais para fora. Às vezes, até são dois de um lado e um do outro, como acontecia comigo.
– Para com isso, por favor!
O escritor sorriu e continuou a escrever a sua tese sobre a morte de Anita Domingos, no dia 11 de janeiro de 2010, em Moçambique, pensando que talvez já a tivesse escrito antes, muito antes, noutro país, noutro planeta...