Nos últimos dias assistimos a mais um episódio de uma estratégia política do PSD que já se tornou previsível: lança-se uma acusação grave, cria-se um clima de alarme público e tenta-se abafar os factos reais. Uma vez mais, o alvo foi Santa Cruz e, em particular, a praia dos Reis Magos. O secretário regional do Ambiente chegou mesmo a falar num cenário de “guerra” nas águas balneares. A expressão é forte, pensada para causar mediatismo. O problema é que a realidade não acompanha o dramatismo.
Para desmontar a aldrabice bastou fazer aquilo que alguns responsáveis políticos não fazem: consultar os relatórios oficiais. E os resultados de qualidade da água são tão claros quanto incómodos para quem decidiu inflamar esta polémica. Os dados produzidos pela própria Secretaria Regional do Ambiente mostram que, desde 2015, a classificação das águas balneares dos Reis Magos tem sido sempre a mesma: EXCELENTE.
Perante estes factos (científicos), a pergunta impõe-se com toda a legitimidade: estamos perante uma preocupação ambiental séria ou perante mais um episódio de perseguição política a Santa Cruz? Porque quando os próprios dados oficiais desmentem o discurso alarmista, o problema deixa de ser ambiental e passa a ser político.
Aliás, mal tinham sido proferidas as acusações públicas do secretário regional e já os diligentes deputados do PSD se apressavam a dar entrada de um pedido de audição parlamentar precisamente sobre a qualidade das águas balneares de Santa Cruz. Uma rapidez notável. Quase instantânea. O que levanta uma dúvida inevitável: tratou-se de um genuíno exercício de fiscalização ambiental ou da simples subserviência parlamentar a uma narrativa política previamente construída?
A resposta torna-se evidente quando se olha para o resto da Região. Existem praias com problemas reais e persistentes de qualidade da água. Na Doca do Cavacas, no Funchal, as classificações negativas repetem-se nos últimos anos. No Gorgulho e na Tabua registam-se análises com resultados preocupantes. Na Praia do Vigário, em Câmara de Lobos, os dados mais recentes apontam para qualidade aceitável ou mesmo má qualidade. Na Calheta também foram identificados episódios de descargas de águas residuais junto à zona balnear.
Curiosamente, todas estas praias localizam-se em concelhos governados pelo PSD. E sobre esses casos reina um silêncio político quase absoluto.
Quem realmente se preocupa com o ambiente olha para a Região como um todo e não escolhe alvos convenientes. A defesa das águas balneares exige rigor técnico, transparência e responsabilidade institucional, não discursos inflamados que ignoram os próprios relatórios oficiais. Ainda para mais quando esses relatórios continuam a atribuir classificação de excelência às águas dos Reis Magos.
Mas o recente debate na Comissão de Ambiente da Assembleia Legislativa desmascarou a hipocrisia e as verdadeiras prioridades políticas em jogo. Foram apresentadas várias propostas para ouvir responsáveis municipais e técnicos sobre a qualidade das águas balneares na Região. Todas as audições que envolviam municípios governados pelo PSD foram prontamente chumbadas pela maioria social-democrata.
No JPP, sabemos lidar com a verdade e não temos receio de enfrentar a fiscalização política: aceitamos sem reservas a presença da Presidente de Câmara de uma autarquia JPP. Mas o PSD recusou fazer o mesmo. Quando se trata de discutir a realidade ambiental da Madeira, o silêncio impera. Mas quando se trata de atacar politicamente Santa Cruz, surgem conferências de imprensa, dramatizações e acusações.
Há ainda um elemento que não pode ser ignorado: a questão da ETAR do Caniço. O que o PSD não quer que se saiba, é que a estrutura foi entregue à Câmara pelo Governo Regional a título provisório e já com um funcionamento deficitário. Um verdadeiro presente envenenado, resultado das más opções de planeamento e construção herdadas de anteriores governos do PSD.
Ainda assim, a autarquia tem defendido a necessidade de um contrato-programa com o Governo Regional para resolver definitivamente o problema, tal como aconteceu noutros “municípios laranja”. Porém, quando se trata de cooperar institucionalmente com Santa Cruz, o Governo Regional ignora as vias de diálogo.
Perante tudo isto, a resposta à pergunta do título torna-se inevitável. Se os dados oficiais confirmam que a água dos Reis Magos é excelente, se existem problemas reais noutras praias que não despertam a mesma indignação política e se a pressa parlamentar surge apenas quando o alvo é Santa Cruz, então dificilmente estamos perante uma cruzada ambiental.
O que estamos a assistir, uma vez mais, é algo bem diferente. É perseguição política.