Nos últimos tempos, assistimos a um desconcertante passeio de políticos e de cidadãos que se dizem iluminados, independentes, conhecedores de tudo e mais alguma coisa, seres que levitam sobre o resto dos comuns mortais em matéria de sabedoria e arte de bem falar, que por entre exercícios de retórica surgem a anunciar a desgraça coletiva e o fim dos tempos.
Estes políticos demagogos e autointitulados grandes especialistas de tudo e mais alguma coisa, ignoram a complexidade dos problemas estruturais, e por isso, aparecem nos noticiários, na comunicação social escrita e nas redes sociais oferecendo soluções fáceis e rápidas que não funcionam, resultando na preterência de soluções reais, porque apenas criam ilusão e confusão na sociedade.
Nesta prática cada vez mais frequente por parte de algumas forças partidárias, a política de ideias é substituída pela “democracia de audiência”, onde o discurso é moldado para agradar ao gosto da audiência, utilizando chavões ou expressões populares com a suposta intenção de ser uma linguagem universal, baseando-se em visibilidade e emoção em vez de consistência programática.
Estes demagogos profissionais utilizam a retórica da “limpeza” ou da “luta contra a cumplicidade”, destruindo consensos essenciais e dividindo a sociedade. Agregam uma série de discursos e atitudes que podem ser vistas como uma tentativa de desvirtuamento da realidade; alteram informações e adotam ações que visam legitimar um tipo de interesse ou uma perspetiva que, na verdade, está completa ou parcialmente afastada de outros pontos que envolvem uma questão.
Ao culpar terceiros pelos problemas e prometer resultados rápidos que não se cumprem, o demagogo corrói a confiança nas instituições democráticas e este é definitivamente um grande perigo que todos os democratas devem combater.
Mas esta não é uma estratégia nova, desenganem-se! Já na história política da Grécia Antiga a demagogia servia para apenas designar aquelas figuras que tradicionalmente exerciam papel de liderança na cidade-Estado de Atenas e se assumiam como líderes populares, mas no final de contas, não tinham nenhum tipo de vinculação legítima e original com aqueles que diziam estar representando.
O próprio filósofo Platão foi um dos primeiros a usar a palavra demagogia em sentido pejorativo para conceituar aqueles que julgavam como bom tudo aquilo que os agradava, e ruim tudo o que ia contra os seus interesses; por fim, concluiu que a demagogia procura formas diversas para convencer a sociedade de que certas ações são benéficas, mesmo quando as possíveis consequências do ato possam indicar justamente o contrário.
Em suma, a demagogia atua como um atalho de responsabilidade, prometendo resultados imediatos que desgastam a situação a longo prazo, deixando problemas graves para o futuro, apenas com o propósito de fazer brilharetes individuais efémeros que nada de benéfico trazem ao bem comum.
Um exemplo claro desta situação é a atitude de várias forças políticas no que toca à mobilidade dos residentes insulares; e digo mobilidade, porque não aceito a nomenclatura “subsídio social de mobilidade”. A mobilidade não é uma esmola do estado ou dos contribuintes portugueses para quem vive nas ilhas: NÃO! A mobilidade é um direito inalienável de todos os portugueses, vertido na Constituição da República Portuguesa, e por isso, é uma questão que devia unir e não separar, porque afinal, no nosso cartão de cidadão, a nacionalidade é igual para todos: portuguesa!