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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

30/04/2023 08:00

Um dia, quando ela já não queria saber de nada, eu inventei, para a convencer a sair ao terreiro apanhar um arzinho, que o povo todo em São João de Latrão, certamente, diria que ela estava numa desmazelada com os arredores por varrer. E ela, senhora de si e do seu mundo, respondeu: "Não me importa o que dizem. Eles dizem da gente, mas a gente também tem o que diga deles." Verdade! Somos o espelho uns dos outros!

Ora, depois do 25 de abril, ainda nova, a tia Elvira foi trabalhar fora para uma casa de bordado na rua da Conceição. A sua tarefa era engomar toalhas de bordado madeira e mais outras peças que aparecessem. Os ferros de engomar eram de outra maneira e era difícil pôr nos conformes bordados daquela categoria! O suor caía-lhe em bica pela cara abaixo e o cansaço das pernas e das costas era imenso. Claro que ela, como eu tinha cobiçado outras tias para mim, também cobiçou o banquinho das mulheres que ficavam sentadas a bordar no grande salão. Sempre era um trabalho mais leve, embora também de grande responsabilidade, com o senhor Gastão a passar a vistoria, as mãos atrás das costas, a cara fechada.

Um dia, logo pela manhã, aconteceu uma grande desgraça a uma engomadeira, mesmo ao lado da tia Elvira. Então não é que a triste desafortunada fez um grande buraco, com o ferro de engomar, numa grande toalha?! Como vai ser isto? Mas quanto vale esta toalha? Quantos anos do meu ordenado para pagar esta perca? O que vai ser de mim?! Veio o gerente Gastão e brigou com a triste. Veio a chefe Estela e disse coisas que não se dizem, porque o mal já estava feito e não valia a pena chover no molhado. E a triste coitada chorava este mundo e o outro, porque aquilo era uma grande arrombo na sua vida. Como vai ser isto?!

E a tia Elvira chegou-se à frente e disse: "Eu sei remediar isto!" Mas que mulher confiada e presumida! E o gerente Gastão consentiu: "Olha, mal por mal, faz o que podes!" Puxou-se um banquinho para a tia Elvira se sentar, vieram os negalhos de linhas, a agulha de bordar e a tesoura e a tia Elvira começou a sua obra de arte. Eu não vi, mas é como se tivesse visto, porque me lembro muito bem da narrativa minuciosa da tia Elvira à hora do jantar à roda da mesa na nossa casa, contando este passo. E a tia Elvira estudou o desenho, fez umas canelas em bordado madeira de um lado para o outro, inventou flores suspensas, segurou bem o tecido, recortou do lado do avesso; repetiu a operação no lado oposto da toalha para respeitar as simetrias, engomou e ao fim do dia foi mostrar como estava a ficar o seu trabalho ao gerente, que, com cara de poucos amigos, não deu o braço a torcer, mas disse: "Amanhã, sentas-te a bordar!" Que grande vitória!

Claro que a confiada e presumida de minha tia, se já era grande, então é que se sentiu maior ainda! Naquele enorme salão de mulheres, o ambiente azedou. Como é que ela tinha conseguido, se tinha sido a última engomadeira a entrar na casa? A tia Elvira tudo percebeu, que não era nada tonta, mas não disse nada e guardou aquele trunfo só para si!

Pela vida fora, em tantas situações críticas que correm pelas bocas do mundo, umas cómicas, outras trágicas; umas de perto, outras de longe, a tia Elvira sentenciava: "Isto tanto faz ser gente fina como ser gente bruta! É tudo igual! Parece o salão da casa de bordados com o mulherio a fazer pela vida e a ver quem pode mais!" E não é?

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