A passagem da Tempestade Kristin rasgou o nosso território, não apenas com a força da natureza, mas expondo a calamidade da nossa impreparação, e não deve ser vista apenas como um desastre natural a lamentar, mas sim como um urgente e imperioso alerta. A fúria da natureza foi o catalisador que trouxe à superfície uma falha sistémica na nossa capacidade de resiliência e planeamento. É fundamental que se realize uma auditoria rigorosa e imediata aos planos de contingência nacionais e regionais, garantindo que o próximo evento climático extremo não encontre o país numa situação de descalabro tão previsível quanto evitável. A preparação para o futuro já não é uma opção, mas sim uma obrigação de segurança nacional. O luto pelas 9 vidas perdidas, as centenas de feridos e o cenário dantesco de milhares sem eletricidade e, nalguns casos, sem água, são o preço da nossa inação. O que assistimos foi a falência da prevenção e uma resposta governativa que se revelou reativa, mas, nunca proativa.
É inaceitável que, perante a iminência de catástrofe e a dimensão do flagelo, ainda haja centenas de milhares de cidadãos sem gerador, condenados à escuridão e ao isolamento. A tragédia mais recente, com vidas perdidas no desespero de reaver o seu abrigo antes da próxima tempestade, é o mais doloroso sinal de que falhamos na preparação e mitigação. E onde está a coordenação? Tendo sido declarado o estado de calamidade em mais de 60 concelhos, o que por definição significa que os meios locais foram ultrapassados, é incompreensível que não se mobilize, de forma imediata e robusta, o Mecanismo Europeu de Proteção Civil (MEPC). Tendo sido uma das negociadoras deste incrível mecanismo, recordo que este instrumento e o seu braço estratégico, o rescEU (a reserva da União Europeia), existem precisamente para coordenar e disponibilizar os recursos de emergência necessários, como geradores, abrigos, bombas de água e até equipas técnicas especializadas para apoiar a reconstrução de infraestruturas críticas. Se os meios locais foram excedidos, não há desculpa para não se recorrer à solidariedade europeia para acelerar a reconstrução.
A meteorologia não acalmará nos próximos dias, o risco de derrocadas e deslizamentos aumenta, a reconstrução rápida do que é crítico e a mitigação urgente são um imperativo de segurança nacional.
Mas nada disto surte efeito sem liderança. Os relatos que chegam do terreno são de populações sem alento. O que se exige, de forma clara, é de comunicação efetiva, contínua e humana à população: o que está a ser feito, quais as indicações e quais as previsões. Em semanas, exige-se a ativação, sem demoras, do Fundo de Solidariedade Europeu e de todas as ferramentas europeias disponíveis para a reconstrução. A resposta à Kristin será o teste decisivo à capacidade e à forma como enfrentamos o problema maior: a emergência climática.
E esta resposta transcende a situação imediata e projeta-se como um barómetro da seriedade, ambição e vontade política para implementar as transformações profundas e sistémicas que o combate às alterações climáticas assim o exige. Porque o desafio da emergência climática não admite soluções paliativas ou isoladas. Exige uma visão holística que integre a mitigação, a adaptação e a justiça social e intergeracional.