Já não lemos.
Não no sentido literal. Ainda compramos livros, ainda os exibimos em fotografias, ainda os pousamos na mesa de cabeceira, ainda comparamos livros comprados e livros lidos. Mas já não lemos como quem procura fricção. Lemos como quem se distrai.
Antes disso, começámos a achar os livros difíceis cansativos. “Muito pesados”, dizíamos. “Muito políticos”, comentávamos. Preferimos histórias rápidas, com vilões claros, heróis incontestáveis e finais confortáveis. A ambiguidade passou a ser um incómodo, não um exercício.
Antes disso, deixámos de sublinhar frases. De dobrar páginas. De ficar inquietos depois de fechar um livro. De procurar significados. De debater ideias. De ver além do óbvio. A literatura perdeu a capacidade de nos desarrumar, e talvez tenhamos sido nós a pedir isso.
Antes disso, os livros avisaram. Sempre avisaram. Falaram-nos de regimes que começaram com palavras simples, de violências que se normalizaram, de maiorias cansadas que entregaram o pensamento a outros, de minorias esmagadas, de terras queimadas, de corpos violados, de extinção da bondade, de ausência de pensamento. Mas parecia exagero. Parecia ficção. Era ficção, não era?
Antes disso, alguém declarou que a cultura era um luxo. Que ler era elitista. Que pensar demais afastava as pessoas. Que a felicidade dependia da ignorância. E concordámos em silêncio, aliviados por não ter de defender aquilo que exige tempo e atenção.
Antes disso, os extremos aprenderam a odiar livros em voz baixa. Não os queimou em praça pública, mas tornou-os irrelevantes. Ridículos. “Desligados da realidade.” E nós deixámos que a realidade ficasse sem palavras para se explicar.
Antes disso, a violência entrou nas páginas dos jornais como estatística. Um número, uma ocorrência, um excesso isolado. Faltou-nos o vocabulário para reconhecer padrões e os livros sempre foram treino para isso.
Antes disso, acreditámos que ler era apenas um gosto pessoal, não um ato político. Como se escolher não ler nunca tivesse consequências coletivas.
Mas isso já não importa.
O que importa é que agora perguntamos como foi possível. Como é que chegamos aqui? Onde falhámos? Quem nos enganou? E esquecemo-nos de que o fim começou quando fechámos os livros antes de eles, os livros, nos conseguirem avisar.