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Artigo de Opinião

GATEIRA PARA A DIÁSPORA

15/03/2026 08:00

Nestas férias, aconteceu-nos o Quénia. Pensar em tal país era-nos longínquo; lembrávamo-nos certamente de Karen Blixen, e do seu Out of Africa [África minha] com Meryl Streep e Robert Redford, onde surgia o menino Farah, da Somália, que ajudava a escritora e latifundiária na fazenda de café de cerca de 6 hectares, com um aeródromo e maquinaria, alguma dela concebida pela própria. Como Karen — que agora é o nome do enorme bairro, em Nairobi, onde antes se situava a fazenda — achava que este menino era particularmente inteligente, custeou os seus estudos em Mombaça, onde os britânicos haviam chegado e estabelecido a capital antes de ser substituída por Nairobi em 1905. A altitude (mais de 1600 m) e a fertilidade dos solos foi determinante para esta transição.

Acabámos por não percorrer a linha férrea construída por chineses, que celebra o seu 8.º aniversário, indo desde Nairobi até Mombaça, onde se situa o porto mais importante do país e do leste de África. A viagem também é considerada interessante por atravessar alguns parques nacionais e ser habitual ver animais, até alguns dos big five (cinco grandes), como são conhecidos o elefante, o búfalo, o leopardo, o rinoceronte e o leão. Contudo, depois de termos visitado o parque nacional de Nairobi, o único situado numa capital — apesar de isto também nos fazer pensar que antes de ali existir aquela megalópole de mais de 6 milhões de pessoas (números não oficiais) já existia um outro ecossistema com animais selvagens —, constatámos que é atravessado por uma enorme ponte ferroviária. Isto tem certamente um impacto na vida selvagem, e acabou por reforçar a nossa decisão de não ir à costa índica, apesar de o meu interesse em visitar Melinde, a alguns quilómetros ao norte de Mombaça, na direção da Somália, ser grande. À falta de ter visto o padrão de Vasco da Gama, regressarei à viagem do Gama — e do seu drama, como referi no artigo À vista desarmada — em Os Lusíadas.

Ao documentar-nos para a viagem, inteirámo-nos do projeto Elimu, que inclui dança afro-clássica, skate, educação, a liga feminina de futebol «Ela pode» e muitas outras atividades num dos maiores presépios de lata de África, Kibera. Apesar da vontade de levar as nossas meninas, que também têm aulas de dança, a dançar com outros meninos, que têm outras vivências exaradas no corpo, não nos foi possível. Gostaríamos de lhes ter mostrado a riqueza que lá existe, como os artesãos de vidro, de cabedal e de vidro soprado. Infelizmente, as alterações climáticas — a época das chuvas chegou mais cedo do que o habitual — têm feito estragos; sendo muitas das ruas de Kibera de terra batida, muitas delas ficaram intransitáveis, o que, aliado a algumas dificuldades em termos de segurança, não nos permitiu ir até lá.

Ainda houve oportunidade de ir até ao parque nacional de Amboseli, já na fronteira com a Tanzânia, e em território massai, como, aliás, muitos dos parques nacionais, que é conhecido pelos seus elefantes e pela sua vista para o Kilimanjaro, apesar de este já se situar na Tanzânia. No final do primeiro dia aí, quando fazíamos uma caminhada pela natureza, vimos crianças a voltar da escola, outras a aproximarem-se deste mzungu (branco, em swahili) — que significa aquele que vagueia, que anda em círculos, dado os europeus terem andado por África a explorar, em diferentes sentidos, as terras desconhecidas, e foi aí que, ao longe, o Kilimanjaro se nos revelou pela primeira vez.

Gostámos muito, sobretudo de quem nos acolheu — um amigo que conheci no Kosovo antes da declaração unilateral da independência, a sua esposa, as suas duas crianças, e as pessoas que trabalhavam em sua casa, onde havia uma estrelícia e algumas helicónias —, mas não conseguimos deixar de pensar que apesar da vegetação luxuriante, da boa comida resultante da fusão de várias gastronomias como, por exemplo, a indiana, da riqueza da vida selvagem, e dos uaus que íamos soltando aqui e ali, os quenianos, parafraseando Jorge Sumares, são mai maiores que o Kilimanjaro. Por isso, talvez uma das coisas que nos deu mais prazer foi visitar a Nice Place Foundation — que identificámos devido a um sinal na estrada que percorríamos para ir até ao parque de Amboseli, com girafas, elefantes e zebras que se avistavam da estrada, bem como gente, que ali vive gente, — e que foi cofundada por Nice Nailantei Leng’ete, que, aos 8 anos — a idade da nossa filha Clara — fugiu de casa para não ser vítima de mutilação genital feminina; o avô acolheu-a, e custeou os seus estudos. Ainda hoje sucede que as meninas da comunidade massai se casem muito precocemente — por exemplo, com 10 anos, a idade da nossa filha Laura — e, a partir desse momento, deixam de frequentar a escola e de ter quase qualquer oportunidade de autonomia, ainda para mais num contexto de poligamia. Para fugir a este círculo vicioso, Nice estabeleceu esta fundação para ser i) um abrigo que acolhe cerca de 100 raparigas, ii) um centro educativo com aulas nas instalações e bolsas que diligencia, e iii) uma academia de liderança para raparigas, formando futuras intervenientes para a mudança. O que vimos, provando o pão que aí era cozido, o leite que aí era servido, os sorrisos que daí emanavam, e as histórias que aí se urdiam, era muito mais bonito do que o Kilimanjaro. Para celebrar este Dia Internacional da Mulher, em que vos escrevo, procurem esta Fundação na Internet, e, caso possam/seja do vosso interesse, contribuam para que estas raparigas possam ser protegidas, frequentem as aulas e sejam fautoras do seu próprio futuro.

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