Angola é um daqueles lugares que nos baralha as referências. Chegamos convencidos de que vamos encontrar algo relativamente familiar. Afinal, são quase 500 anos de história partilhada, a mesma língua, e uma série de sinais exteriores que nos piscam o olho à memória portuguesa. Entramos num restaurante e lá está bacalhau no menu. Às vezes até carne de porco à alentejana. A arquitetura de muitos edifícios lembra cidades portuguesas dos anos 60 e 70. Nos cafés discutem-se as desventuras do Benfica e do Sporting com uma paixão que faria corar muitos lisboetas. À primeira vista, sentimos que estamos num país estranhamente próximo.
Mas essa familiaridade dura pouco, porque, por baixo da superfície, as diferenças culturais são abissais.
Um dos meus motoristas chamava-se Castro. Era um homem organizado. Tinha três mulheres, cada uma numa casa contígua, todas com filhos dele (suponha-se), todas aparentemente em harmonia. O Castro tinha também uma agenda conjugal que faria inveja a qualquer gestor de multinacional, pois passava a segunda e terça com uma, quarta e quinta com outra, sexta, sábado e domingo com a terceira. O mais extraordinário não era a logística, mas a normalidade. As famílias conviviam, os filhos brincavam juntos, as mulheres conversavam. Para os olhos de um europeu, aquilo parecia uma experiência surreal.
Talvez como consequência dessa realidade polígama, encontrei em Angola uma sociedade sexualmente muito mais permissiva do que a europeia. Muitas adolescentes iniciavam a vida sexual aos 14 ou 15 anos, e poucas mulheres chegavam aos 19 ou 20 sem filhos. A média era de cinco filhos por mulher. É verdade que havia também uma realidade dura, pois cerca de 25% das crianças morriam antes de chegar aos cinco anos. Num contexto desses, a demografia obedece a outras lógicas.
Outro motorista, chamado Freitas, orgulhava-se de ter 50 filhos. Nunca consegui perceber com quantas mulheres, e suspeito que ele também não. Era camionista e, segundo dizia com satisfação, “fazia filhos por onde passava”.
Eu tinha 27 anos. Quando me perguntavam quantos filhos tinha e eu respondia que nenhum, olhavam para mim como se eu fosse uma curiosidade zoológica. Tentei explicar que preferia primeiro ter estabilidade financeira e encontrar a mulher certa antes de ter filhos, mas o meu discurso parecia-lhes tão exótico como se eu estivesse a explicar física quântica.
A contracepção também não era particularmente popular. Um angolano explicou-me um dia, com grande convicção filosófica:
— Eu quando disparo, acerto no alvo.
Era difícil argumentar contra uma teoria tão segura de si própria.
Outra coisa que me impressionou profundamente foi a anarquia organizada que parecia reger grande parte da vida quotidiana. Não que Portugal seja propriamente um modelo suíço de organização. Imagino que um norueguês ou um suíço olhe para nós como quem observa uma espécie tropical particularmente caótica. Mas em Angola o caos atingia uma dimensão quase artística. Via-se no trânsito, na recolha de lixo, na gestão de condomínios, nas repartições públicas. Era uma coreografia espontânea onde cada um parecia improvisar o seu papel.
Uma vez, a embaixadora dos Estados Unidos disse-me, com grande humor, que a função pública angolana combinava o pior da burocracia portuguesa com o pior da soviética.
E depois havia a corrupção.
Portugal não é um convento de virtudes, longe disso como todos sabemos. Mas em Angola a coisa tinha uma franqueza quase refrescante.
A polícia pedia “gasosa”.
Funcionários do aeroporto pediam “gasosa”.
Funcionários de repartições pediam “gasosa”.
Era um sistema simples, transparente e de fácil compreensão.
Em Angola, percebi uma coisa curiosa, pois podemos partilhar a mesma língua, os mesmos pratos e até os mesmos clubes de futebol e ainda assim viver em universos culturais completamente diferentes.
E talvez seja isso que torna o mundo tão interessante.
Porque, no fundo, viajar serve para nos lembrar que aquilo que consideramos normal é apenas... local.