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Artigo de Opinião

HISTÓRIAS DA MINHA HISTÓRIA

26/04/2026 07:30

Junto a um contentor de lixo, vi pedaços de um espelho e logo pensei: oxalá quem o partiu não sofra os sete anos de azar preconizados pela superstição popular. Sorrindo com os meus botões, segui caminho, questionando se o mau agoiro se agravará de acordo com o tamanho do espelho, o que seria mau porque este era grande. Talvez devesse ter fugido do tema a sete pés, mas fiz exatamente o contrário e não parei de pensar nele.

As referências e simbologias associadas ao número sete são muitas. São sete: as maravilhas do mundo, as notas musicais da escala ocidental, as artes, os chacras do corpo humano, os castelos conquistados aos mouros que constam na bandeira nacional, as saias das mulheres da Nazaré. As naus portuguesas cruzaram os sete mares, seguindo artes de marear, à altura, segredos guardados a sete chaves. Os mortos são sepultados sete palmos abaixo do chão e, em sua memória, é rezada a missa do sétimo dia. Sendo leiga, não sei se a atribuição da camisola sete a jogadores de futebol implica a sua excelência.

A atenção a este número terá possivelmente surgido quando os humanos aprenderam a dividir em unidades os períodos das fases da lua ou identificaram as sete cores do arco-íris. Tal como aconteceu com a génese de tantas outras coisas, também neste caso, tudo se relacionará com os ciclos da natureza e as rotações do sol e da lua, que determinaram a divisão do tempo cronológico. Hoje temos sete dias como semana, mas nem sempre foi assim. Tempos houve em que o ano se dividia em doze meses de trinta dias, cada um com três semanas de dez dias.

A uniformização de um modelo foi, ao longo da história, um verdadeiro bicho-de-sete-cabeças. O imperador Júlio César (100 - 45 a.c.), impulsionador de grandes acertos do calendário, teve de enfrentar muitas questões e questiúnculas. Pode dizer-se que foi preciso o diabo a sete para pôr de acordo astrónomos, interesses políticos e religiosos.

No ano 730, já da era cristã, o imperador Marco António, reconhecendo a importância da reforma de Júlio César, homenageia-o, determinando que o sétimo mês do ano se denomine Julius (o nosso Julho), e introduz novas alterações ao calendário. Mas as discrepâncias e alterações prolongar-se-iam por séculos. Em 1582, o papa Gregório XIII estabelece novas regras, inicialmente, apenas adotadas por Portugal, Espanha e Itália. Outros países foram-se juntando, mas não faltaram também recuos. No sec. XVIII, a França recusa a subserviência ao Calendário Gregoriano, até aí seguido pela monarquia, e substitui-o pelo calendário da antiguidade. Contudo, oitenta anos depois, retomaria o Calendário Gregoriano. Noutros países este só viria a ser aceite mais tarde, sendo a Grécia e a Turquia os últimos fazê-lo, respetivamente, em 1923 e 1926. Mas, voltemos ao sete.

Aquando da escritura da bíblia já esse número era useiro: sete dias da criação, sete virtudes, sete sacramentos. Há centenas de referências ao número sete nos textos bíblicos, uma delas, tão bem aproveitada por Camões no seu soneto, do qual deixo a primeira estrofe: “Sete anos de pastor Jacob servia/ Labão, pai de Raquel, serrana bela;/, mas não servia ao pai, servia a ela, / e a ela só por prémio pretendia (...)

Os sete anões, companheiros da Branca de Neve, as botas de sete léguas do Pequeno Polegar ... e por aqui fico, esperando não vos ter cansado com as divagações nestes sete parágrafos. Eu estive nas minhas sete quintas a escrevê-los.

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