Eu nasci em liberdade. Cresci a ouvir falar da Europa, de direitos, de oportunidades. Sou dessa geração europeísta que nunca sentiu o peso de uma ditadura na pele — e talvez por isso tenha ainda mais dificuldade em perceber o que isso realmente foi. Mas sei isto: celebramos esta semana mais de 50 anos desde a Revolução dos Cravos, e esse não é apenas um número bonito para discursos. É uma responsabilidade.
Porque olhar para trás dói. E deve doer.
Recentemente li o O Diário de Anne Frank. E aquilo não é só um livro — é um murro no estômago. Uma família, fechada entre paredes, sem liberdade, a escrever com uma lucidez que envergonha muitos adultos de hoje. E enquanto lia, pensei: não precisamos de ir aos Países Baixos ocupado pelos nazis para encontrar histórias de vidas apertadas. Aqui, em Portugal, durante décadas, havia quem vivesse com “liberdade” no papel, mas com a cabeça e a dignidade aprisionadas. Havia quem crescesse em furnas, em barracas, sem água, sem luz, sem futuro — mas com um regime a dizer que estava tudo bem.
E na Madeira, então? Quantas histórias ficaram por contar? Quantos madeirenses tiveram de partir, empurrados pela pobreza, pela falta de oportunidades, por um país que lhes virava as costas?
Hoje fala-se de Abril como um feriado e uma dicotomia entre extrema-direita e extrema-esquerda. Evocam-se os “brandos costumes”, celebra-se a liberdade — e ainda bem. Porque Portugal mudou, e mudou muito. Passámos de um país com um quarto da população analfabeta para um país onde a educação chegou a quase todos. Criámos o Serviço Nacional de Saúde, aumentámos a esperança média de vida, reduzimos drasticamente a mortalidade infantil. Trouxemos luz, água e dignidade a sítios onde antes só havia abandono.
Mas não nos enganemos: Abril não foi feito para estatísticas e para guerras ideológicas. Foi feito para pessoas – para nós!
E por isso a pergunta impõe-se — quase como um grito: já cumprimos Abril?
Os Capitães de Abril não arriscaram tudo apenas para mudar um regime. Arriscaram para mudar um país. Queriam justiça, igualdade, dignidade. Queriam um Portugal onde o lugar onde se nasce não fosse uma sentença. Onde ninguém tivesse de emigrar por desespero. Onde a voz do povo não fosse um sussurro com medo.
Cinco décadas depois, temos liberdade. Mas será que temos igualdade? Temos democracia. Mas será que temos justiça para todos?
E aqui, deixem-me falar como madeirense.
A nossa Autonomia também faz 50 anos. Cinquenta anos de conquista, de afirmação, de voz própria. Pela primeira vez na nossa história, deixámos de ser apenas um ponto no mapa para sermos protagonistas do nosso destino. A Autonomia não é um capricho — é uma necessidade. É a resposta a séculos de distância, de esquecimento, de centralismo.
Mas hoje, essa mesma Autonomia é atacada. Há quem nos olhe como um fardo. Quem fale da Madeira como se fosse um peso morto. Quem use palavras como “subsídios” e “dependência” sem perceber a realidade de uma região ultraperiférica, arquipelágica, afastada do continente, mas profundamente portuguesa.
E então vale a pena perguntar, com frontalidade: quanto custa, afinal, a Autonomia?
A resposta pode surpreender muitos. A Autonomia é um investimento. Representa uma pequena fração do orçamento nacional, muito inferior ao impacto económico que a Madeira gera, seja através do turismo, da diáspora ou da sua posição estratégica no Atlântico. Cada euro investido na Madeira é devolvido em coesão, em presença territorial, em afirmação nacional.
O que custa, de verdade, é o desconhecimento. É o preconceito. É o centralismo de Lisboa, mesmo por aqueles que se encantam com a capital. É o facilitismo de quem nunca teve de viver numa ilha.
Abril deu-nos liberdade. A Autonomia deu-nos voz.
Mas nenhuma delas está garantida para sempre.
Abril não é um destino. É um caminho — feito de escolhas, de coragem, de memória. E talvez a pergunta mais honesta que podemos fazer, hoje, não seja se Abril está cumprido.
É se estamos à altura de Abril – ou se continuamos a permitir que o centralismo impeça que ele chegue à nossa Madeira.