Ainda hoje, quando oiço aquele zumbido mais grosso no ar, volto logo a Santana. Há sons que nos ficam nos ouvidos e que permanecem para sempre.
Não penso duas vezes. Vem-me à memória uma caixa de fósforos na mão, o cuidado de não a deixar abrir de repente... e nós, miúdos, com mais coragem do que juízo.
Apanhar zangões era quase um feito. Não era para qualquer um. Aqueles grandes, pesados, barulhentos. Apanhávamo-los com um cuidado que era metade coragem, metade inconsciência. Metíamo-nos dentro da caixa de fósforos das grandes, como se estivéssemos a guardar um tesouro vivo. Depois vinha a parte mais engenhosa: com jeito, abríamos uma pequena fresta, amarrávamos uma linha na pata e deixávamo-lo voar. E lá ia ele, preso ao nosso comando, a zumbir pelo ar, como um papagaio improvisado, barulhento e meio descontrolado. Coisas de criança.
Havia dias em que a coisa corria bem. E havia outros...
Os frascos das coleções eram prova disso. Abelha aqui, zangão ali, tudo guardado como se fosse um tesouro. Mas bastava uma distração, uma tampa mal fechada... e aquilo virava um pandemónio. O frasco abria-se e eles saíam disparados, furiosos, sem avisar ninguém. Era ver a malta a fugir em todas as direções, cada um por si. Quem ficava mais perto... azar. Ainda hoje me lembro de braços no ar, correria, gritos e depois, claro, gargalhadas. Muitas gargalhadas, principalmente de quem não tinha sido apanhado. Não havia maldade, havia curiosidade. Queríamos ver de perto, observar, perceber. Era quase ciência, à nossa maneira desajeitada de crianças.
E no meio disso, havia também a paciência. As lagartas ensinavam isso. Apanhava-as na rama da batata-doce, com aquele cuidado de quem já sabia onde procurar. Metia-as depois numa caixa de fósforos com folhas de urtiga e ficava à espera. Dias. À espera que dali saísse uma borboleta. Às vezes saía. Outras vezes não. Mas ninguém desistia por causa disso.
Já as lagartixas...talvez a caça as lagartixas fosse a mais engenhosa. Com erva camacheira, fazíamos um nó em forma de círculo na ponta. Depois, um detalhe que parecia segredo antigo: um pouco de saliva. Colocávamos a armadilha junto aos buracos dos muros. A lagartixa, atraída, espreitava, metia a cabeça... e nós puxávamos com rapidez. Ficava ali, presa, imóvel, entre o susto e o instinto. Brincávamos e voltávamos a soltá-la.
Hoje, olhando para trás, podia alguém chamar-lhe crueldade. Mas não era. A intenção e muitos menos a consciência era essa. Era descoberta. Era crescer em contacto direto com a terra, com os bichos, com a vida tal como ela é, sem filtros, sem versões editadas.
Não porque tivéssemos muito, mas, porque tudo nos bastava. Uma caixa de fósforos, uma erva cumprida, um fraco vazio. E tempo. Sobretudo Tempo.
Nós não brincávamos para passar o tempo.
Nós vivíamos dentro dele.
Hoje as crianças têm tudo, menos isto.
Menos o silêncio das tardes longas.
Menos o risco que ensina.
Menos a liberdade de errar, experimentar, descobrir.
As nossas brincadeiras podiam ser simples, até estranhas aos olhos de hoje. Mas eram nossas. Nascidas da terra, da curiosidade e da vontade de viver o mundo com as próprias mãos.
E talvez seja isso que mais faz falta agora:
Voltar a dar às crianças uma infância que não se fique apenas por um ecrã... mas numa memória que nunca se apague.