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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

5/06/2026 08:00

Naquele tempo, o Rapaz conheceu uma miúda chamada Piedade e estiveram a conversar durante três horas, enquanto lá dentro, no bar, decorria um concerto ao vivo. O Rapaz tinha ido ali de propósito para assistir ao concerto, pois gostava muito da banda, que era formada por quatro jovens e tinha nascido por mero acaso, diziam eles. O nome da banda era Silver Drop e o vocalista, que também tocava guitarra, era norueguês, mas cantava sempre em inglês. O Rapaz só ia ao bar quando eles atuavam ao vivo e foi por isso que conheceu Piedade.

Quando chegou, o concerto já tinha começado, talvez há dez minutos, de modo que correu para entrar no recinto e foi então que tropeçou em Piedade, que vinha a sair e tropeçou nele. Pediram desculpa ao mesmo tempo e depois ela disse que estava muita gente lá dentro, gente a mais, disse ela, e a música está muito alta, ninguém consegue falar com ninguém. Ele olhou para o interior através da porta de vidro, desejando entrar, e depois olhou para ela, inesperadamente desejando-a.

– Pois é – disse ele. – Gente a mais.

– Vou ficar cá fora, na esplanada – disse ela.

– Eu também – disse o Rapaz.

Não se conheciam de lado nenhum, nunca se tinham visto, nem sequer de passagem na rua, nem sequer à distância, mas naquela noite sentaram-se a conversar como velhos amigos e tudo passou sem darem conta de nada – a lua e as estrelas, o rumor do mar em frente e o apelo do infinito ao longe, a música dos Silver Drop lá dentro, os risos, os aplausos, os gritos, os amigos que saíam para apanhar ar e diziam olá e voltavam a entrar, as pessoas que chegavam e as que partiam, as pessoas que passavam, a brisa noturna cada vez mais fria, a vozearia, a embriaguez da festa.

O rosto de Piedade era magro, de traço fino, muito gentil e o seu corpo era tão bem torneado, muito elegante, muito gracioso e o Rapaz, que era um tipo normal, um tipo quase apagado, estava sempre a pensar: Meu Deus, esta mulher é mesmo bonita! Meu Deus, esta mulher é lindíssima! Meu Deus, esta mulher tão bonita!

Piedade era muito dinâmica na atitude e no gesto, muito independente, cheia de vida e de projetos, cheia de sonhos. Disse que estudava arte e design. Disse que tinha nascido na ilha de Reunião, mas os pais eram portugueses. Disse que não se lembrava de nada na ilha de Reunião, porque os pais regressaram à Europa quando era muito pequena. Disse que já tinha vivido em Lisboa, no Porto e em Madrid. Disse que morava na Madeira há dois anos e depois, quase de seguida, disse que não suportava viver na Madeira. Disse que se sentia atrofiada. Disse que detestava viver em ilhas pequenas e, por isso, estava sempre a querer ir embora, embora não soubesse para onde. Disse que, infelizmente, ainda não tinha arriscado fazer muitas viagens, sobretudo viagens à toa, e suspirou por isso. Disse que as viagens à toa são sempre as melhores. Disse que a vida é uma viagem à toa.

Piedade e o Rapaz partilhavam muitas opiniões, ideias e pontos de vista acerca da vida e do Mundo, de modo que ele gostou imenso de falar com ela, imenso, e pensou várias vezes na eternidade ao seu lado e já não havia música ao vivo nem gente no bar quando se despediram.

Ela disse:

– Foi um prazer.

O Rapaz respondeu:

– O prazer foi todo meu.

Sorriam com sinceridade um para o outro.

O Rapaz não teve coragem de lhe pedir o número de telefone. Achou que não era conveniente, achou que isso podia estragar a beleza e o encanto das três horas de conversa. Então, em contrapartida, disse amigavelmente:

– Vemo-nos por aí.

Ela entrou no carro, ligou o motor, engatou a primeira e, antes de arrancar, disse:

– Sim, vemo-nos por aí.

Mas, de facto, nunca mais se viram...

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