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Artigo de Opinião

PALAVRAS APENAS

2/06/2026 08:00

No coração antigo da cidade, entre ruas que lembram, ainda, o sal das caravelas e o rumor das procissões antigas, ergue-se o Museu de Arte Sacra do Funchal como um lugar onde a arte e a fé se encontram e são felizes. Inaugurado no dia 1 de junho de 1955, o Museu cumpre, este ano, 71 anos. São 71 anos de Beleza, de salvaguarda do Património, de proteção daquilo que é de todos, de uma Beleza que nos pertence.

Instalado num edifício do século XVIII, um antigo Paço Episcopal situado na Rua do Bispo, guarda, em si, os tesouros maiores da nossa identidade: a nossa cultura, a fé que tem pautado a nossa História, a beleza que nos permite abrir (e as palavras são de D. Teodoro de Faria) “janelas para o infinito”.

Entrar ali é perceber que o silêncio mora nas peças que, ao longo de muitos séculos, têm falado de Deus. Lá fora, o Funchal move-se em vozes, motores, turistas, cafés e gaivotas. Cá dentro, porém, o tempo perde a pressa. A madeira esculpida conserva ainda o fervor das mãos que a tocaram; os santos, de olhos gastos pela devoção, parecem escutar orações que continuam a fazer sentido, nos dias que correm.

E há o silêncio que habita aquele instante em que o visitante abranda o passo diante de um Cristo flamengo, de uma Virgem coroada ou de uma pintura que atravessou a distância para se fixar neste lugar onde a montanha se encontra com o mar.

As coleções flamengas do museu trazem consigo o perfume húmido do Norte da Europa, misturado com a luz atlântica da Madeira. E nessa fusão percebe-se a história da ilha — porto de passagem, cruzamento de impérios, altar suspenso entre continentes.

A voz do museu é feita de verniz antigo, de sombras frias, de passos abafados sobre pedra. Há lugares que se visitam; este escuta-nos.

Na torre, espera-nos um núcleo de ícones ortodoxos. A “arte divina” (é assim que as igrejas do oriente chamam aos ícones) convida ao silêncio e à descoberta do invisível. E, dessa forma, ajuda a criar pontes e redes capazes de elevar e transformar o espírito humano. Referindo-se à poesia, Edgar Morin, dizia que ela ajuda a “transpor os nossos próprios limites, a comungar com aquilo que nos ultrapassa[1]”. Os ícones também.

No fim da visita, na varanda, quando a luz exterior volta a ferir os olhos e o Funchal reaparece com o seu azul marítimo e os jacarandás dispersos pelas ruas, um painel de azulejos apresenta-nos as virtudes: fé, esperança e caridade.

Talvez, à saída, fique a sensação de que alguma coisa permaneceu lá dentro — um fragmento de inquietação, um resto de espanto, ou apenas a memória de que a beleza, quando sobrevive aos séculos, se transforma numa forma discreta de eternidade.

Venha visitá-lo. O Museu precisa de si para continuar a cumprir a sua missão.

[1] Morin, Edgar (2003). O Método V. a Humanidade da Humanidade, a identidade humana, 61.

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