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Artigo de Opinião

Doutorada em História / Investigadora

4/06/2026 07:30

Chegamos a junho. Já a cheirar a Verão. Hoje, é dia de festa. Uma festa muito especial na vida da Igreja Católica: a Solenidade do Corpo de Deus, também conhecida como Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. O Corpo de Deus. Um momento de profunda reflexão e celebração. Há muitos anos, e até aos meus sete anos, estaria a estrear um vestido novo, feito no quarto de costura, no Chão da Loba, pelas mãos da dona Josezinha, para ir, de mão dada, com a minha querida avó Cidália, na procissão. O percurso parecia-me eterno, de tão grande a distância percorrida, pelas principais ruas do Funchal, entre a Igreja do Colégio e a Sé, para tão pequenas pernas. Nunca mais voltei a fazê-la. Não, da mesma maneira.

A história do Corpo de Deus está intrinsecamente ligada à instituição da Eucaristia por Jesus Cristo durante a Última Ceia. A crença na presença real de Cristo, no pão e no vinho consagrados, é o cerne desta festa. O que realmente celebramos é o mistério da transubstanciação. Como cristãos, acreditamos nesta presença real porque, na última ceia, o Senhor Jesus disse: «isto é o meu corpo, isto é o meu sangue»; e Ele, a nós, cristãos, nunca nos engana. Em Portugal, a devoção ao Corpo de Deus ganhou importância no reinado de D. Manuel I. Foi ele quem promoveu a construção de magníficas igrejas e capelas para a adoração do Santíssimo Sacramento. A procissão do Corpo de Deus, com o Santíssimo exposto solenemente, é uma das manifestações mais visíveis desta devoção. E, permanece até hoje.

Hoje, «A Primavera está por toda a parte». Hoje, voltei, uma vez mais, a José Tolentino Mendonça, a uma das suas obras: Pai-Nosso que estais na Terra. Uma espécie de guia para crentes e não crentes, que começa logo com esta mensagem de esperança. Em Pai-Nosso que estais na Terra, o cardeal aborda a mesa como um espaço sagrado de partilha e justiça, onde o pão partilhado supera o egoísmo e cria um laço comunitário. A obra convida a viver o presente e a valorizar a dimensão coletiva do alimento, transformando o quotidiano num exercício de espiritualidade. De crescimento interior. Como se de uma peregrinação se tratasse: «Não nos escutarmos, até ao fim, é desperdiçar uma preciosa ocasião para aceder àquela profundidade que pode devolver sentido à existência». É necessário termos esta disponibilidade para escutar. Para acolher. Em Pai-Nosso que estais na Terra, o autor convida à simplicidade e a uma libertação de acumular pesos desnecessários. A mesa é retratada como um altar. Como lugar de partilha, onde o ‘pão nosso’ simboliza uma fome coletiva e a proximidade com o próximo, transformando a terra num local de encontro. Num local de saber estar. De ter tempo. Ter todos os dias acesso ao ‘pão nosso’, é viver todos os dias na companhia de Jesus.

A mensagem, é simples: é a de que Deus já está no meio de nós. Neste momento de oração, D. Tolentino Mendonça lembra que «o que precisamos é de nos tornar sensíveis a essa presença». Um sim declarado a uma busca interior que nos dá sentido à vida. Todos os dias. «A medida do amor é dar-se sem medida. É um contrassenso pensar que o amor tem um horário, um turno, um guiché. Quem ama vive na atenção solícita, tem antenas (sempre ligadas, digo eu), sensores, olhos que não se habituam nem conformam ao desamor». No final, todas as nossas vidas encaixam nesta metáfora do pão. Do serviço aos outros. Da partilha. «Triste de quem está contente», citando Fernando Pessoa.

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