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Artigo de Opinião

ÀS VEZES VOO. ÀS VEZES CAIO

Jornalista

1/06/2026 08:00

Uma visão ou a primeira sombra. Tudo principia de um osso principal. Uma luz que estremece e não vem de dentro, mas da tua mão; ela que, por fim, vem imitar o caos e espremer a beleza mais funda desse corpo que se perdera. E então o teu rosto deixa de ser terrestre e a noite não tem nenhuma ordem.

E tudo é agora piamente orgânico e, de alguma forma, póstumo. Há uma malignidade que vem por bem sempre que os meus olhos caem ao mar e é insondável todo o desejo. Mesmo que nada mais haja, sobra uma febre irredutível que há-de espalhar-se até ao fim, uma água em forma de lâmina rasgando o cume dessa cicatriz que é toda a infância. Estamos iludidos de um morno princípio, quando é afinal ali que tudo acaba.

A mãe renasce de uma membrana da terra para abrir o céu, e a claridade reveste a escuridão de uma pele nominal, sôfrega.

As minhas mãos entram nas palavras inaugurais, naquelas que pesam mais do que a carne e nos devolvem ao tremor dos inícios. Ainda que procuremos compreender, é inútil todo o conhecimento sobre a vida e sobre a morte; são inúteis o verbo e o seu tempo. É preciso fé para desentender o mundo e tornar descontínuo o lugar onde nos reconhecemos. O que somos é o desejo, e talvez por isso não possamos ser integralmente maus.

Repara como floresce a boca que sangra, como é belíssimo o seu mistério de súbita musa encarnada no mar. Vê como a beleza pode ser este terror de estrela afogada no silêncio administrativo. E, no entanto, o corpo pressente o seu próprio erro, e nomeia um lugar onde cair, uma palavra alquímica onde permanecer além do irreparável, porque a memória há-de falhar daquilo que não falamos. Sucumbimos, assim, à altura da noite, entrando devagar em searas marítimas, alimentando pelo coração animais abruptos e invisíveis.

A noite há-de, depois, forjar a descida das árvores sobre a última ária, até que o corpo renasça do descanso e retome a partir do frio o seu sentido placentário. Único. A pureza também se esconde no inferno, quando se esgota todo o engenho para reaver uma alma e o corpo envelhece definitivamente. Nada nos pesa tanto como a leveza desse corpo intransitivo, livre da mácula que lhe deu o grito, limpo da primeira água e do movimento principal. Morre o tempo de temer e desejar, e a morte é implacável – vem engolir os que perderam a fome. Nada se espera da eternidade senão uma cilada.

Escrever o que falta é tão somente adiar a próxima queda na ilusão de torná-la perpétua – mais estética, talvez –, uma réplica da mão curva que dói para não deixar o corpo cair. Mas a mão esquece-se de que o corpo já não a acompanha, e o poema é agora um reduto de frio à mercê do tédio; é demasiada a claridade para o mistério. Tudo é nada por ser demasiado, creio.

Um dia, que pode ser hoje, ou até já ter sido, o poema transformará a mão no corpo inteiro e, tremulamente, nascerá de um esporão de silêncio sobre os ombros [não foi nunca uma palavra]. E a fome, de novo, há-de atravessar a morte numa língua urgente.

OPINIÃO EM DESTAQUE

silviamariamata@gmail.com

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