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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

31/05/2026 08:00

Sempre ouvi dizer que roubar é feio. Quando a minha tia se apaixonou pelo marido da sua vida inteira, a família toda não achou graça nenhuma. Menos meu pai, que se deitou ao caminho a chamar à razão daquela gente: “Então o rapaz é bandido, é algum ladrão? Não é”. Foram estas palavras sinceras e verdadeiras que eu ouvi da boca de minha tia, na ocasião do enterro de meu pai. Já se sabe que quando morre uma pessoa, vêm sempre à cabeça lembranças do defunto. António Aleixo também escreveu “Dizem que pareço um ladrão, mas há muitos que eu conheço, que não parecendo o que são, são aquilo que eu pareço.” Também nisto estamos entendidos. E agora vamos ao que é preciso, porque quando não, não me dá tempo para tudo.

Quando minha mãe era pequena, roubou uma pataca esquecida, no parapeito de uma janela da casa de uma das minhas tias mais velhas. Aquela pataca ali sem utilidade, e a triste de minha mãe podendo comprar na venda de João da Paz uma barrigada de bananas! Foi o que ela fez e foi para o passeio, comer as bananas às escondidas. Também há pouco tempo, a minha amiga R. confessou-me que quando andávamos no Batalhão, no fim da aula de ginástica, eu pus-me a puxar com tanta força por ela que quase lhe arrancava o braço, para ela se aviar, que íamos perder o horário, mas ela não se movia, porque tinha uma moeda de cinco escudos debaixo da sapatilha e não queria que eu visse para não ter de dividir comigo o tesouro. Desafortunado de quem a perdeu!

Houve também um tolo que no ano de 2004 me roubou a minha pasta. Ele pensava que tinha lá dentro um computador ou uma fortuna, mas enganou-se, porque só encontrou papéis que não serviam para ninguém, senão para mim. Por isso a largou para um canto num café das redondezas. Foi assim que, averiguadas as papeladas, chegaram ao meu nome. Quando a fui receber, numa escola amiga, o que me faltava na pasta eram acetatos do tempo do meu estágio e coisas que só aos profes encantam! Pois é! “A ocasião faz o ladrão”! Até fiquei contente, porque era sinal de que o meu trabalho artesanal daquele tempo tinha valor para alguém. Que assim seja!

Minha prima Margarida, que Deus lhe dê o céu, contou-me a rir que um dia parou o carro no canto da estrada do Lombo da Quinta, porque tinha visto uma carteira em cima do muro. Às pressas, levou a carteira para o interior do veículo e quando a foi abrir para gozar a riqueza, o que tinha lá dentro era, com licença, merda pastada. Também há destas!

Eu também furto galhinhos de flores por aí e, quando adolescente, trouxe comigo um livro, sem valor monetário nenhum, de uma biblioteca que já não existe e que ficava na subida para a Pena. Nunca o li com vergonha do meu crime. Por estas e por outras, tenho pensado em quem teria sido o bandido que roubou “O Parnaso” a Camões. Quem me dera ter podido lê-lo dando-me à sua leitura sossegada. Quem seria o homem? Ponho-me a imaginar a sua fisionomia e os seus dotes culturais, a paixão que pôs naquela maravilha. Ou será que esse tonto fez igual a mim e não o abriu sequer com vergonha do seu pecado? Pode ser!

“A Troca de Livros” da minha escola é um encanto para mim, entre tantas outras atividades tão valiosas, claro. Nesses dias, sou uma criança, aquela criança que inveja as outras que têm à porta a carrinha da Calouste Gulbenkian, coisa que eu nunca tive na minha vida e tenho muita pena, porque ninguém sabe o mal que me fizeram ao se esquecerem de São João de Latrão!

A modos que na “Troca de livros” da minha escola, este ano, pus-me a ler esmorecida a um canto, noutro mundo encantado, o livro de Valter H. Mãe, “As mais belas coisas do mundo” e apeteceu-me a trazê-lo sorrateira para casa. Que feio! Mas logo fiz a minha confissão à colega organizadora do evento que, em vez de me criticar, achou graça e deu-me abraços. E até a S.S disse assim: “Ó amiga, mas também quem é que ia querer um livro desses, se isso só fala de coisas tão simples e tão inúteis?”. R: Eu.

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