O aumento das mensalidades nos lares privados, motivado sobretudo pela falta de trabalhadores, expõe uma das feridas mais profundas e silenciosas da nossa sociedade: a forma como cuidamos dos nossos idosos e como valorizamos ou desvalorizamos quem cuida deles. Segundo a União das Misericórdias Portuguesas, através do seu presidente Manuel Lemos, Portugal enfrenta um cenário preocupante: uma população cada vez mais envelhecida, níveis crescentes de dependência e uma escassez grave de profissionais para responder a essa realidade. E, perante esta pressão, muitos lares privados veem-se obrigados a aumentar as mensalidades, colocando famílias inteiras numa situação de grande fragilidade financeira.
Este fenómeno não pode ser analisado de forma simplista, nem reduzido à ideia de “ganância” ou “interesse económico”. A realidade é muito mais complexa e exige honestidade ética. Os lares 100% privados não recebem apoios diretos do Estado. São os proprietários que investem diariamente: nas instalações, nos equipamentos, na alimentação, na segurança, na formação, na supervisão, na qualidade dos cuidados. E são os próprios idosos, ou as suas famílias, que suportam integralmente os custos.
Para garantir um serviço digno, seguro e humano, um lar não pode funcionar com equipas mínimas e mal preparadas. Precisa de profissionais suficientes. Precisa de auxiliares, enfermeiros, técnicos, animadores, psicólogos, terapeutas. Precisa de equipas multidisciplinares, formadas, estáveis e motivadas. E essa motivação não nasce apenas da “vocação”. Nasce da valorização. Nasce das condições de trabalho. Nasce do salário justo.
Todos reconhecemos que, em Portugal, os salários no setor dos cuidados são baixos. Muito baixos. Desajustados ao custo de vida. Desajustados à exigência física, emocional e ética do trabalho. Cuidar de pessoas dependentes é uma das tarefas mais duras que existem. Exige paciência, empatia, resistência, responsabilidade e humanidade.
Quando um lar decide pagar melhor, melhorar turnos, evitar sobrecarga, investir em formação e estabilidade, está a fazer aquilo que eticamente deve fazer. Está a respeitar quem cuida. Está a proteger quem é cuidado. Mas isso tem um custo. E é aqui que surge o dilema moral mais doloroso: quem paga a dignidade?
Quando os privados aumentam salários para atrair e manter profissionais qualificados, são obrigados a refletir esse custo nas mensalidades. Não porque queiram explorar famílias, mas porque, sem isso, o serviço degrada-se. A rotatividade aumenta. O cansaço instala-se. A qualidade cai. E, no fim, quem sofre é o idoso. Temos, então, uma equação cruel: Se não se paga melhor → faltam profissionais. Se se paga melhor → sobem as mensalidades. Se sobem as mensalidades → muitas famílias não conseguem pagar. Este não é um problema dos lares. É um problema do país. É o resultado de décadas de desvalorização do cuidado. De políticas insuficientes. De ausência de uma estratégia nacional para o envelhecimento. De uma visão que trata a velhice como um “custo” e não como uma responsabilidade coletiva.
Eticamente, não é aceitável que o acesso a cuidados dignos na velhice dependa apenas da capacidade financeira das famílias. A dignidade humana não pode ser um luxo. O conforto, a segurança e o respeito na última etapa da vida não podem ser um privilégio. Mas também não é justo exigir aos privados que funcionem com prejuízo, que explorem trabalhadores ou que prestem cuidados precários para manter preços baixos. Explorar quem cuida é ferir quem é cuidado.
Se queremos lares de qualidade, precisamos de profissionais valorizados. Se queremos profissionais valorizados, precisamos de investimento. Se queremos investimento justo, precisamos de responsabilidade pública. Cuidar bem custa. Mas abandonar custa muito mais — em humanidade, em justiça e em consciência.