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Artigo de Opinião

Consultor

3/06/2026 08:00

À medida que as empresas começam a adotar a Inteligência Artificial (IA), muitas concentram-se exclusivamente na eficiência e na produtividade. Tal perspetiva poderá constituir um erro, já que ignora os custos psicológicos de trabalhar com a IA, que podem anular os benefícios da mesma.

Nova investigação publicada na Harvard Business Review (2026) identifica uma Dívida Psicológica que pode suprimir a adoção da IA e minar o retorno do investimento, levando à tendência para evitar a sua utilização, mesmo quando os trabalhadores reconhecem o seu valor. Os seis fatores determinantes da Dívida Psicológica, com potenciais efeitos psicológicos negativos, são os seguintes:

1) Dívida Cognitiva – potencial perda de capacidades de processamento cognitivo e de tomada de decisões. A tendência de delegar tarefas difíceis à IA prejudica a compreensão do problema e reduz o sentimento de responsabilidade pela solução;

2) Dívida de Autonomia – sensação de que a IA está a privar-nos da capacidade de controlar a forma como trabalhamos. Embora os líderes empresariais incentivem a utilização da IA, quando se concentram na produtividade e nos conhecimentos técnicos, os trabalhadores associam-na à perda de autonomia e à substituição, o que conduz ao cansaço emocional e à desconexão;

3) Dívida de Competência – sensação de que, quanto mais utilizamos a IA no trabalho, menos competentes nos tornamos. Tarefas complexas que nos levariam dias, são agora concluídas pela IA em segundos, conferindo uma sensação de confiança que não temos para nós próprios. Quanto menos competentes e confiantes nos sentimos, mais dependemos da IA, agravando o desafio;

4) Dívida de Relacionamento – diminuição do nosso instinto social de fazer parte integrante de grupos sociais. O aumento da utilização da IA diminui a interação social, já que esta fornece respostas claras e encorajadoras, nunca discute, nunca se cansa e tem uma paciência aparentemente infinita;

5) Dívida de Credibilidade – sensação de que os trabalhadores perdem credibilidade perante os seus colegas, mesmo quando esses colegas também utilizam a IA nas suas funções. Isto sugere que as pessoas encontram justificação para a sua própria utilização, mas criticam a dos outros;

6) Dívida de Identidade – a teoria da identidade social defende que pertencemos a diversos grupos sociais e que nos identificamos com aquele que nos dá melhores orientações sobre como nos devemos comportar. Pode acumular-se uma dívida de identidade profissional quando o uso da IA em determinados fluxos de trabalho viola a pertença ao grupo, prejudicando-o.

Estas formas de Dívida Psicológica podem causar prejuízos às empresas que adotam a IA, minando a motivação dos trabalhadores, prejudicando os esforços de colaboração/inovação e gerando níveis elevados de stress e burnout. A solução consiste em desenhar deliberadamente as interações entre humanos e IA, introduzindo atritos para preservar o raciocínio, garantindo a autonomia, reforçando a experiência humana e normalizando o uso da IA a nível social e cultural.

Em suma, a adoção da IA não é apenas um desafio de implementação tecnológica, mas sim humano. Compreender a infraestrutura humana será tão importante quanto escolher as ferramentas certas de IA, já que estas não irão funcionar, caso os trabalhadores não as utilizem. Parafraseando o antigo Cirurgião-Geral dos EUA, Charles Everett Koop: “Os medicamentos não fazem efeito em doentes que não os tomam”.

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