MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

25/04/2026 08:00

Apregoa-se liberdade e democracia, mas a importância de Abril advém de, com estas, se ter consagrado um conjunto de direitos na expressão de um estado social e de bem-estar que transformou a realidade social e económica e devolveu a esperança à população. A qualidade de vida melhorou substancialmente, mas a sua densificação parece andar ausente de uma concretização consistente. O desenvolvimento humano expectável no país de Abril soa longínquo num reformismo ziguezagueante e inconsequente. Paira ainda o medo e a incerteza, o espectro da fome e da pobreza, a inacessibilidade à habitação condigna, aos cuidados de saúde, à educação, à justiça pronta. Acentua-se o empobrecimento da classe média e cresce o fosso e a desconfiança entre os cidadãos e os seus representantes.

O 25 de Abril tende a transformar-se numa data histórica insípida cujo significado e valor se resume ao sabor de um dia feriado. Os hemiciclos engalanam-se com cravos, nas encenações obrigatórias da nomenclatura, debitam-se discursos de circunstância e uns tipos voluntariosos erguem bandeiras e bradam os slogans da praxe, em manifestações estafadas que não empolgam a indiferença instalada. Para a maioria da população, a braços com um dia-a-dia difícil, é preferível gozar a folga no campo ou na praia, borrifando-se para o evento e os seus figurantes, na apatia generalizada que se vem formando sobre o fenómeno político. As inconsequências, as malfeitorias, os enriquecimentos descarados e outras aleivosias de uma certa classe política, envenenaram decisivamente a conexão correcta e saudável com os cidadãos. Afora uma ou outra convulsão para a defesa de interesses corporativos, a país segue desencantado e alheado, como o revela a abstenção eleitoral.

Falta seriedade, credibilidade, liderança capaz para galvanizar a população para a realização do sonho colectivo. Cavalgando o descontentamento, germinam saudosismos, discursos de ódio e intolerância, procurando minar a democracia e o estado social em agendas autocráticas. Acresce, na partidocracia tradicional, uma horda de cínicos que não assimilou as noções de pluralismo e liberdade, a quem o cravo da Celeste causa urticária, figurões que no tempo da velha senhora não passariam de empregados de café e que fomentam ânimos de ódio aos inimigos, os que não partilham dos mesmos chavões, num básico se não és por mim és contra mim. É imperioso restaurar o argumento, em detrimento da trapaça, do achincalhamento, do engodo e da propaganda. É imperioso restaurar a ideologia, a consciência social, a noção de interesse público, num tempo em que a política se converte num mero arranjo umbilical de poder a conquistar em universos de quatro anos.

A História demonstra que só as sociais-democracias são capazes de um compromisso equilibrado, justo e duradouro da vida em comum, desde que se libertem dos escolhos que as corrompem e ludibriam. E é preciso mobilizar os jovens. Afora os que, em detrimento do mercado de trabalho e a profissionalização, se lançam na via fácil do carreirismo político como elevador social, numa ambição sem ideal colectivo, a generalidade dos jovens de hoje parece não ter qualquer propensão ou espaço para o fenómeno político, ignorando assustadoramente as configurações do sistema e a importância que tudo isso tem na sua vida.

A democracia não é um valor conquistado, é uma luta constante pela afirmação da liberdade, do respeito pela pluralidade e pela justa redistribuição da riqueza para a criação de um estado de bem-estar social.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Concorda com a escolha de Paulo Barreto para representante da República para a Madeira?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas