MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Diretor

25/04/2026 08:00

Em bom rigor, o título tem outro autor. Foi tirado a Valter Hugo Mãe num capítulo do livro ‘A Máquina de Fazer Espanhóis’.

Não é por falta de palavras que se tira um título a um escritor premiado. Nem é especial gosto pessoal usar o alheio. Mas aquelas três palavras, assim arrumadas, parecem ter sido especialmente escritas para classificar uma larga maioria de madeirenses desinteressados com essas coisas da cidadania.

São boa gente, muitos deles. Que vive bem com a vida, considerando que não estão para perder tempo com as injustiças ou com contributos para uma sociedade melhor.

São cidadãos que dispensam essa maçada da cidadania e, sobretudo, essa coisa da cidadania ativa, que implica pensar na vida e ainda mais em dizer, escrever ou manifestar uma posição própria de qualquer forma.

São ‘cidadãos não praticantes’, como se dizem os católicos que já esqueceram a reza toda, mas garantem que mantêm o título que receberam por herança.

‘Cidadãos não praticantes’ encerra uma definição alternativa de muitos madeirenses. ‘Cidadãos não praticantes’ é a nossa cara chapada. Uma das nossas imagens de marca. É tão nosso, como agora se diz.

Mas atenção que esta definição não assenta apenas naqueles que encolhem os ombros e baixam a cabeça e fixam o olhar na calçada. Também há os outros. Os que opinam sobre tudo e sobre todos, mas através de cabeça alheia.

Se o escritor tivesse pensado melhor, também os teria classificado a esses como os ‘cidadãos seguidores’. Daqueles que abanam a cabeça a quem os manda sem cuidar de pensar uns segundos sobre o que ouvem e o que lhe dizem para ouvir.

E entre os que se manifestam muito, às vezes de forma ruidosa, estão também os que se acham o espelho da verdade. Da sua verdade. E tentam arrebanhar todos os outros nessa narrativa. São, no fundo, uma variação de cidadãos não praticantes, porque encaram a cidadania como algo que se impõe ao outro e não como algo que se pratica em respeito pelo outro.

Falar de cidadãos não praticantes nos 52 anos da Revolução do 25 de Abril ou quando se assinalam os 50 anos de Autonomia parece quase uma forma de heresia. Mas não é.

Abordar este tema procura ter aqui um outro foco, o de mostrar o plano inverso: significa que Abril ainda não se cumpriu.

Abril abriu portas a uma vida nova, à liberdade, aos direitos, às conquistas pessoais e coletivas. Mas Abril, enquanto ideal que marcou gerações, que levou à derrota da ditadura e implementou a democracia, esse Abril é também um processo inacabado e que nunca pode ser dado como garantido. Porque não o é.

Agora, que se fala muito da data, dos discursos que vamos ouvir, dos que estão guardados e dos que ficam por dizer, parece que tudo está feito. Mas não está.

Falta passar a mensagem. Transferir conhecimento real acumulado para que esta esta experiência de meio século não seja percebida, um dia, apenas pelos livros de história recente.

Não se trata aqui de doutrinar. É antes de passar o legado. De falar e mostrar o antes e depois. Esse exercício não carece em absoluto de palco e de um discurso alinhado e mais ou menos floreado.

Basta-lhe conteúdo para chegar aos mais novos. E que melhor podemos fazer do que juntar quem viveu outro tempo com quem está a chegar agora à idade adulta? São testemunhos poderosos, às vezes até emotivos, que devem ser partilhados enquanto é possível.

Esta geração, que troca livros por experiências, também quer saber mais de quem passou por aqui neste meio século. Haja vontade em valorizar memórias e contar como foi.

Tudo isso são formas de ajudar a fazer cidadãos praticantes.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Concorda com a escolha de Paulo Barreto para representante da República para a Madeira?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas