A saúde está cada vez mais digital. Marcamos consultas online, acedemos a receitas eletrónicas, consultamos resultados, recebemos notificações, usamos aplicações e comunicamos com os serviços através de plataformas. Tudo isto representa um verdadeiro progresso. A tecnologia pode aproximar os cidadãos dos cuidados, reduzir deslocações desnecessárias, integrar informação clínica e tornar o sistema mais eficiente. Mas há uma pergunta que não podemos deixar de fazer: quem fica para trás quando a porta de entrada para a saúde passa a ser um ecrã de um dispositivo móvel?
Os dados são claros e preocupantes. Em Portugal, apenas 53% dos cidadãos com mais de 65 anos utilizam a internet de forma autónoma; 9,4% usam aplicações de saúde; 13,2% sabem marcar uma consulta online; e menos de 16% conseguem solicitar uma receita. Um estudo da Universidade de Coimbra revelou que apenas 29% dos portugueses com baixa escolaridade navegam autonomamente no portal SNS 24. Segundo o Health at a Glance 2025 da OCDE, cerca de 38% dos portugueses com mais de 65 anos não conseguem utilizar plataformas digitais de saúde de forma eficaz.
Esta questão é particularmente relevante na Madeira, onde o envelhecimento torna a literacia digital um assunto de saúde pública preocupante. E o envelhecimento não vem sozinho: traz maior prevalência de doenças crónicas, maior dependência dos serviços de saúde e, frequentemente, menor familiaridade com as ferramentas digitais que esses serviços exigem cada vez mais.
A Organização Mundial da Saúde alertou, em 2024, que a inovação digital em saúde pode aprofundar as desigualdades quando não é acompanhada por estratégias de equidade. Os dados europeus confirmam: apenas metade dos países da Europa e da Ásia Central implementou políticas de literacia digital em saúde. E mesmo entre os próprios profissionais, estima-se que 30% a 70% não possuam as competências digitais necessárias para apoiar, esclarecer e orientar os utentes.
O problema não está apenas na tecnologia. Está na forma como é introduzida, explicada e acompanhada, ou não. Na saúde, a exclusão digital vai muito além de um procedimento administrativo falhado: pode significar, atrasar uma consulta, deixar de renovar uma receita de medicação, falhar um rastreio ou perder uma janela de prevenção. É um problema de equidade no acesso, de segurança clínica e de justiça social.
Isto não significa que temos de travar a digitalização — pelo contrário. A tecnologia é indispensável para modernizar os serviços, melhorar a continuidade dos cuidados e reduzir erros. A questão não é se devemos avançar, mas como e com quem?
Avançar bem exige que a digitalização complemente a relação humana, não a substitua, que as plataformas sejam acessíveis, com linguagem simples e percursos intuitivos, que existam verdadeiros canais presenciais e telefónicos para quem deles precisa e que se formem cidadãos e profissionais capazes de navegar no sistema sem perder autonomia.
Na Madeira, este debate deve ser realizado e ter prioridade na política de saúde. A transição digital pode melhorar o acompanhamento de doentes crónicos, reforçar a continuidade dos cuidados e reduzir assimetrias, mas só se a inclusão digital for planeada como parte integrante dessa política de transição digital e não como um detalhe a resolver depois.
A saúde do futuro será mais digital. Mas não pode ser menos humana. A tecnologia deve libertar tempo para cuidar melhor, aproximar e não excluir. Uma saúde verdadeiramente moderna não é a que coloca tudo numa aplicação. É a que garante que, mesmo num mundo digital, ninguém fica para trás.