Há algumas semanas fui ao concerto do Bad Bunny, em Lisboa para a tour ‘DeBÍ TiRAR MáS FOToS’ (traduzido para ‘Devia ter tirado mais fotos’). Gostei imenso. O ambiente estava incrível, as pessoas estavam felizes e havia aquela sensação rara de milhares de desconhecidos estarem a viver o mesmo momento. O quão bonito é isso?
Mas houve uma coisa que não consegui deixar de notar. À minha volta, havia centenas de telemóveis no ar. Não estou a falar de gravar uma música favorita ou tirar uma fotografia para mais tarde recordar. Falo de pessoas que passaram praticamente o concerto inteiro a filmar.
A irmã de uma amiga minha, que tem 21 anos, era uma delas. Durante quase todo o espetáculo teve o telemóvel na mão. Gravava, publicava, voltava a gravar, respondia a mensagens e colocava vídeos nas redes sociais à medida que o concerto ia acontecendo. No final da noite ficou sem bateria.
Lembro-me de olhar para ela e perguntar-me: será que estamos a viver o concerto da mesma forma? Atenção, não a estou a criticar. Ela divertiu-se, cantou e aproveitou a noite. Mas fez-me pensar numa coisa: para muitas pessoas da geração dela, viver e partilhar parecem ser quase a mesma coisa.
Já tinha sentido algo semelhante quando fui ao concerto da Rosalía, desta feita em Bruxelas. Antes de me perguntarem qual era a minha música favorita ou o que esperava do espetáculo, a estagiária do meu escritório perguntou-me qual seria o meu outfit e se iria seguir a estética associada ao concerto. Na altura achei graça. Hoje acho que a pergunta dizia mais sobre os tempos em que vivemos do que sobre o concerto em si.
Claro que os concertos sempre tiveram uma componente social. Não vivi os dos anos 70, 80 ou 90, mas cresci a ouvir as histórias da minha mãe. Havia estilos, modas, penteados e até uma certa identidade associada aos artistas. As pessoas também queriam pertencer a um grupo.
Hoje tudo é amplificado. O concerto começa semanas antes com vídeos sobre o que vestir, que maquilhagem usar, onde comprar os acessórios e continua dias depois com reels, stories e publicações. Em alguns casos, parece que o espetáculo acontece tanto no palco como no Instagram ou no TikTok. Talvez isso seja inevitável, mas também muda o motivo pelo qual muitas pessoas compram bilhetes: não apenas pela música, mas por fazer parte do momento.
Vivemos numa época em que as experiências se tornaram uma forma de mostrar quem somos. Antes exibiam-se bens materiais... Casas, carros, terrenos. Hoje exibem-se viagens, restaurantes e concertos. Não acho que isto seja necessariamente mau. As redes sociais permitem partilhar momentos, criar comunidades e prolongar experiências. Mas também me pergunto se, por vezes, não estamos tão ocupados a guardar memórias que nos esquecemos de as viver.
A certa altura, guardei o telemóvel no bolso. Não gravei nada. Não tirei fotografias. Limitei-me a ouvir e a observar o que se passava à minha volta. Curiosamente, esses são os momentos de que mais me lembro.
Acho que a questão não seja se os concertos mudaram. Claro que mudaram. A cultura muda, a tecnologia muda e nós mudamos com ela. O que ainda não sei é se esta necessidade de registar tudo é uma questão geracional ou simplesmente o próximo passo da forma como todos nós passámos a viver.
Mas sei uma coisa: alguns dos melhores momentos da nossa vida merecem mais do que um lugar na galeria do telemóvel.