O 10 de Junho chega este ano num tempo em que a democracia parece caminhar sobre gelo fino. A instabilidade global cresce, os extremismos ganham terreno e as promessas populistas seduzem quem se sente deixado para trás. Celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é, por isso, mais do que um feriado, é reafirmar que a nossa força nunca esteve na divisão, mas na convivência; nunca esteve no medo, mas na abertura ao mundo; nunca esteve na exclusão, mas na capacidade de integrar, acolher e dialogar com todos.
Portugal tem sido, ao longo das últimas décadas, um exemplo de estabilidade democrática num mundo cada vez mais fragmentado. Somos pequenos na geografia, mas grandes na forma como nos relacionamos com o mundo. A nossa reputação internacional construiu-se na diplomacia, no diálogo e na integração das comunidades emigrantes, bem como na forma como sempre soubemos acolher. Num tempo em que tantos países se fecham sobre si próprios, continuamos a ser vistos como um espaço de equilíbrio e tolerância.
A Madeira é parte essencial desta identidade. A celebração dos 50 anos de Autonomia e dos 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia, que este ano traz o Presidente da República à Região, lembra-nos que a pluralidade interna do país é uma força, não uma fragilidade. A Autonomia mostrou que é possível conciliar identidade própria, responsabilidade democrática e pertença nacional, reforçando a coesão em vez de a fragmentar.
Num momento em que Portugal volta a assumir responsabilidades globais, como a recente eleição para o Conselho de Segurança das Nações Unidas, percebemos que o país continua a fortalecer o seu papel no mundo. Essa imagem de estabilidade e confiança é um dos nossos maiores ativos coletivos e não pode ser desperdiçada.
É também neste contexto que os discursos populistas encontram espaço para crescer. Apresentam-se como vozes de rutura, prometem recuperar um país que alegam ter sido perdido e oferecem respostas simples para problemas que exigem tempo, conhecimento e responsabilidade. A sua força não está na profundidade das propostas, mas na capacidade de transformar frustrações legítimas em indignação permanente. E quando a política se reduz a esse estado emocional, a convivência democrática deteriora-se. Não estamos imunes a este risco. A história ensina-nos que nenhuma democracia é garantida e que a erosão dos valores democráticos raramente acontece de forma repentina. Instala-se aos poucos, normalizando a divisão e a desconfiança.
Por isso, o 10 de Junho deve ser também um momento de responsabilidade. A democracia não se protege sozinha e a convivência que construímos exige cuidado, diálogo e participação. Portugal tem uma tradição de moderação e abertura que vale a pena preservar. Num tempo em que o ruído e a radicalização parecem ganhar terreno, é essencial reafirmar que o futuro se constrói com respeito, com instituições fortes e com a capacidade de ouvir antes de dividir.
Celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas é celebrar esta ideia de país aberto e plural. Num mundo incerto, a nossa maior força continua a ser a capacidade de permanecer unidos na diversidade. Que este 10 de Junho nos lembre que a democracia é um compromisso diário e que o nosso caminho nunca se fez pelo medo, mas sim pelo orgulho de ser português.