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Artigo de Opinião

Diretor

6/06/2026 08:05

Durante o malfadado tempo da covid-19, a sociedade foi pródiga em inventar coisas. Criaram os cumprimentos de cotovelo ou de punho fechado, os fatos de plástico transparente da cabeça aos pés, o ‘fique em casa’ e outras pérolas que guardamos no armário que ninguém deseja reabrir.

Mas havia outra invenção curiosa: a arte de encaixar as pessoas em quadrados para os primeiros eventos públicos antes da normalização da vida social. Todos nos lembramos desse tempo em que era cada um no seu quadrado para ver o fogo de artifício, por exemplo. Eram as chamadas bolsas de segurança para evitar contactos e contágios.

Há uma música, entre muitas outras dos canais infantis, que transmite um ensinamento que devia ser para a vida.

Cada um no seu quadrado.

A letra é simples, como deve ser tudo o que parece complicado.

Cada um no seu quadrado serve também para separar partidos políticos e sindicatos que se misturam em ações de rua e opiniões públicas.

Meio século de democracia já devia ser suficiente para uns e outros perceberem a necessidade de separar caminhos, prática que só ajudaria esses dois lados da participação cívica.

Mas não. Ainda acontece amiúde ver magotes de políticos ao lado do palanque dos sindicalistas e grupos de dirigentes sindicais de megafone a pedir votos nos ‘seus’ partidos.

Isso acontece a cada Dia do Trabalhador, a cada manifestação de rua, a cada greve e a cada campanha eleitoral.

O resultado dessa intromissão é a desvalorização das mensagens, dos protagonistas e dos discursos alinhados.

E é pena. Porque no espaço democrático cabem todos e cada um ouve e segue e aplaude ou rejeita o que quer. Mas quando se mistura tudo, sai enfraquecida a causa partidária e fica fragilizada a luta sindical.

Os que associam esta prática aos partidos de esquerda e aos sindicatos estão completamente certos. O discurso sindical anda muito perto da mensagem dos partidos de esquerda e não há mal nisso, desde que devidamente separado.

Mas há outros exemplos semelhantes em que se atropelam partidos de centro e direita com outras organizações sociais, desportivas, culturais e até religiosas. E isso é igualmente mau e banaliza o discurso e a área de intervenção de cada um.

Há também dirigentes de instituições que ‘se colam’ a governantes e autarcas e vice-versa. O mesmo com clubes e associações.

Há deputados mais próximos do poder que parecem ter sempre lugar marcado na primeira fila das inaugurações, onde quase não entram os da oposição.

E é tão errada a reserva de lugar aos amigos do poder como o aparente desprezo ou desinteresse dos restantes. Uns e outros fazem parte do cenário político e têm a mesma legitimidade eleitoral. Uns e outros devem ocupar o seu lugar, sem ter a tendência de preencher o espaço do próximo.

No fundo, é recapitular as bolsas de segurança da covid ou seguir o que é ensinado desde cedo às crianças: cada um no seu quadrado.

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