Nestes dias lembrei-me de Mafalda Veiga e da sua canção Cada lugar teu: Eu vou guardar cada lugar teu/ Ancorado em cada lugar meu/ E hoje apenas isso me faz acreditar/ Que eu vou chegar contigo/ Onde só chega quem não tem medo de naufragar.
Temos visto acontecerem coisas que muitas e muitos de nós julgávamos impossível. Na Europa, uma geração de políticos conseguiu construir uma lógica de paz e bem-estar social, após o fim da II Grande Guerra. Agora percebemos que esses valores estão mesmo ameaçados.
Magnatas que dominam a tecnologia e a riqueza de todo o planeta ultrapassam os governos nacionais, decidem quem merece ou não viver, manipulam a população com as tecnologias que controlam e promovem. Conseguem que a maioria das pessoas viva anestesiada em narrativas de pós verdade e permaneça insensível à dor de outros, culpando os mais desfavorecidos pelo que de mal vai acontecendo, sem questionar a realidade. Financiam Trump, Nethanyahu, políticos e grupos de extrema-direita pela Europa, continente que urge eliminar por ainda ter réstias de valores e práticas democráticas.
Esta visão de sociedade investe na polarização e na consequente falta de diálogo. A democracia e os seus instrumentos aparecem como algo desprezível e obsoleto. O Estado é um alvo a abater, os impostos também. As alterações climáticas são criações dos cientistas e da educação, pelo que urge rapidamente extingui-los.
Na letargia em que nos deixámos cair, pensar diferente passou a ser algo condenável que só causa problemas. Insultar e denegrir quem pensa de outro modo passou a ser regra. Ser pobre voltou a ser consequência da vontade da própria pessoa. Investir na inclusão e na igualdade de oportunidades é errado. Só contribui para o aumento de quem quer viver à custa do sistema...
Olhando para Portugal percebemos que este caminho também está a ser traçado. O não é não está a transformar-se rapidamente no não é sim. O pacote laboral investe na precariedade, na perseguição aos sindicatos, no ataque à maternidade e parentalidade, mesmo que os estudos mostrem o nosso inverno demográfico. A ideia enquadra-se na defesa do regresso das mulheres a casa, sem direitos e dependentes dos homens. A Prestação Social Única (PSU) aborda as questões da pobreza e das desigualdades no modelo de sociedade da extrema-direita: perseguir e culpabilizar quem necessita de ajuda, enquanto protege fugas ao fisco do grande capital, paraísos fiscais, regimes especiais para captação de grandes fortunas. Hoje o pequeno contribuinte é perseguido pelo fisco. Já os donos disto tudo são alvo de perdões e de incentivos fiscais. Políticos insultam deputadas eleitas, e acham que esse crime se enquadra nas suas competências políticas, refugiando-se em imunidades que descredibilizam a política.
Não chegámos aqui porque sim. Chegámos aqui porque decidimos não ouvir quem está no nosso metro quadrado. Porque preferimos ser apáticos. Porque não nos importámos. Porque escolhemos dizer mal e nada fazer. Porque não votámos. Porque abdicámos de fazer ouvir a nossa voz. Porque optámos pela preguiça.
Nas pichagens e nas manifestações após o 25 de abril havia uma frase que se repetia: quem adormece em democracia, acorda em ditadura. Se não nos envolvermos na defesa daquilo em que acreditamos, a liberdade e os direitos democráticos fenecerão, sem apelo nem agravo. É possível mudar tudo isto. Basta mudar de atitude. Olhar para o outro e encontrar pontes. Respeitar. Defender a liberdade e os direitos. Isso ajudar-nos-á a chegar onde só chega quem não tem medo de naufragar.