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Artigo de Opinião

7/06/2026 08:00

Ao longo da minha vida profissional trabalhei em vários países islâmicos. Líbia, Paquistão, Afeganistão e Ilhas Comores fazem parte dessa lista. Infelizmente, e apesar de ter conhecido pessoas extraordinárias em todos eles, as minhas experiências não foram particularmente felizes.

A percepção que retirei desses países foi a de sociedades profundamente conservadoras, onde o peso da religião se faz sentir em praticamente todos os aspectos da vida. Lugares onde a diferença é vista com suspeita, extremamente misóginas onde as mulheres são desprezadas e maltratadas, onde amiúde existe uma sensação latente de superioridade moral em relação aos não-muçulmanos, os famosos “infiéis”, categoria na qual nós, decadentes ocidentais, somos automaticamente incluídos.

Naturalmente, esta é uma generalização. Conheci académicos brilhantes, activistas corajosos, jornalistas independentes e pessoas genuinamente abertas e tolerantes. Mas, no meu contacto com estas sociedades, essas pessoas pareceram-me muitas vezes a excepção e não a regra.

Por isso, quando penso nos países islâmicos onde trabalhei e dos quais guardo memórias verdadeiramente positivas, apenas dois me vêm imediatamente à cabeça: Senegal e Líbano.

Hoje fico-me pelo Líbano.

O Líbano é provavelmente um dos países mais fascinantes que já visitei. E isso diz muito, porque estamos a falar de um país que, nos últimos anos, aparece regularmente nos noticiários por razões pouco animadoras como crises económicas, tensões sectárias, influência do Hezbollah e ataques israelitas quase diários.

Mas não se pode reduzir o Líbano às manchetes. A história do país é vertiginosa. Trata-se de uma das regiões de ocupação contínua mais antigas do planeta. Fenícios, persas, gregos, romanos, árabes, otomanos e franceses passaram por ali, deixando camadas sucessivas de cultura, arquitectura, património, religião e identidade. O resultado é um autêntico museu ao ar livre, onde cada pedra parece ter participado em pelo menos três impérios e duas guerras.

Tudo isto concentrado num território cerca de nove vezes menor do que Portugal.

A diversidade humana é igualmente impressionante. Muçulmanos sunitas e xiitas, cristãos maronitas e ortodoxos, drusos, arménios e pequenas comunidades de outras religiões convivem num espaço incrivelmente reduzido. Nem sempre convivem pacificamente, é verdade, mas convivem.

Em Beirute, a diversidade está literalmente em cada esquina. Num passeio cruzamo-nos com mulheres de hijab. No seguinte, com jovens vestidas como se estivessem em Milão ou Barcelona. Num café discute-se política em árabe. Na mesa ao lado fala-se francês. Na seguinte, inglês. Muitas vezes a mesma conversa mistura os três idiomas numa única frase.

E depois há a questão da aparência. O Líbano ganhou fama como a “capital do Botox do Médio Oriente”. Depois de alguns dias em Beirute, percebe-se porquê. Há muitos lábios volumosos por metro quadrado.

Ao contrário de muitos dos seus vizinhos, o álcool circula livremente, o jogo é legal e a vida nocturna é intensa. Durante anos, Beirute funcionou como uma espécie de válvula de escape regional. Aos fins-de-semana, sauditas, kuwaitianos, iraquianos, iranianos e outros visitantes chegavam para fazer aquilo que nas suas sociedades seria mais difícil admitir — ou praticar.

A antiga “Suíça do Médio Oriente” sempre teve um talento especial para transformar contradições em modelo de negócio.

Os libaneses que conheci eram, na sua esmagadora maioria, cosmopolitas, poliglotas, viajados e dotados de uma impressionante capacidade negocial. Não é por acaso que a diáspora libanesa conta milhões de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

Claro que esta descrição corresponde sobretudo ao Líbano urbano, sofisticado e relativamente privilegiado que conheci. Nas zonas rurais e nas comunidades mais conservadoras, a realidade pode ser bastante diferente.

E também seria ingénuo ignorar que esta extraordinária diversidade tem frequentemente um custo. Quando tantas identidades, religiões, memórias históricas e interesses coexistem num espaço tão pequeno, as tensões nunca desaparecem completamente. Por vezes explodem em violência, guerras civis e tragédias.

Ainda assim, saí do Líbano com uma impressão muito diferente daquela que tinha levado de outros países islâmicos. Não porque seja um paraíso, na realidade está muito longe disso, mas porque encontrei uma sociedade complexa, contraditória, imperfeita e profundamente humana.

O que torna o Líbano tão fascinante, é a sua recusa permanente em caber dentro de qualquer definição simples.

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