A poesia visita-nos, creio. Não a escolhemos, não a decidimos. Porventura somos escolhidos naquilo a que chamamos “inspiração” - que não bate à porta de quem se limita a esperar. Carece de ação. Jack London dizia que não podemos ficar à espera da inspiração, temos de ir procurá-la”.
O livro de poesia Solitude, foi escrito, materialmente, em cerca de dois ou três anos. Mas a escrita materializada tem, tantas vezes, um caminho prévio e invisível em que se “inscrevem” poemas de outras formas: nos afetos que nos seduzem, nos lugares que apreendemos, nas dores que nos assaltam, na ternura que nos premeia, nos instantes que captamos... E os poemas deste livro, na verdade, foram sendo escritos pelas minhas vivências e memórias- a mais remota e terna, a memória da minha avó, eternizada em mim. Nasceu também da inquietação, a mesma inquietação que (me) impele tantas vezes para a escrita. Nasceu, sobretudo, em tempos de solitude que é quando começa a viagem das palavras que desvelam o mais íntimo de nós. Cada livro é uma viagem para dentro de quem o cria, dos seus afetos, lugares e paixões. Dão o encantamento das palavras e a possibilidade de as esculpir e tentar aprimorar em poemas que são a extensão de tudo o que se é e se vive. Devolvem a capacidade de acordar de um sonho sem ter medo de cair, por exemplo - as palavras são inúmeras formas de existir, de se desvelar, de cair, de renascer...E que desvendam realidades interiores que nos habitam sem o sabermos... e que nos permitem sobreviver sem fugir.
Solitude, foi a palavra escolhida para dar o tom deste livro. Esta, é uma palavra que, conscientemente, me define desde sempre. Solitude é uma “solidão positiva” que serve de leito para a introspecção, e para o encontro recorrente com o que nos dimensiona. Dito de outra forma é a solidão que acompanha, mas sem que doa. É a solidão íntima e profunda, que ilumina. Qual entidade divina e reconfortante, mesmo no ermo de uma montanha fria. Pode ser lida também pela mudez de um ilhéu frente ao mar que se declara numa reclusão buscada, ou na serenidade soprada pelo cair da noite...
Outra imagem que me ocorre para a solitude, é a do gato de Guimarães Rosa que “está só”, como tantos de nós somos (estamos) sós. Mas este “não é só da solidão”, é “o só da solistência”, diz o poeta.
O livro que ontem foi lançado, pela editora On y va, e apresentado pelo Poeta e amigo Fernando Pinto do Amaral, é também uma evocação a dois amigos que já não estão connosco, o André Freire- um intelectual, politólogo, um aglomerador de pessoas que não gostava de poesia e que temia a solidão; e o Francisco Simões, um professor, um político, um poeta que se desvelava pela escultura e pelo humanismo que cabia em si.
A falta que me fazem, porém, não caberá neste tributo, nem nos poemas que lhes dedico...