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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

12/06/2026 08:00

Entre muitas coisas atinadas, Frei Lourenço da Ressurreição, um carmelita descalço que viveu no século XVII, em França, dizia que estava mais unido a Deus quando tratava dos seus assuntos quotidianos do que quando os punha de parte para se dedicar às suas devoções e à oração.

Para mim, que não acredito em Deus e vou morrer em pleno século XXI, a tirada é deveras brilhante. Raios partam o frade! Na prática, acho que esta atitude funciona como chave da salvação e posso aplicá-la a todos os níveis da existência, entre os quais este que aqui me traz todas as semanas – a escrita. O segredo da sua presença regular está em deixá-la acontecer sem preocupação maior, sem objetivo traçado, sem fim definido, como se a escrita fosse, por exemplo, aquele homem que andava à procura duma cabra perdida nas serras de Santo António e, de repente, encontrou um cadáver humano pendurado numa árvore, com uma corda ao pescoço, já quase feito esqueleto.

Também acontece tantas vezes, na vida como na escrita, me faltarem forças para suportar os sonhos e isso faz-me pensar de forma vívida no tempo em que éramos todos crianças. Sim, éramos todos crianças – eu, tu, ele, nós, eles – e víamos o mundo em tons suaves. Verde-claro, azul-claro, rosa-claro. Estas eram as cores das casas, dos carros, das roupas, e nós víamos televisão a preto e branco e o mundo inteiro parecia-nos suavemente descolorido, a guerra era descolorida, o sofrimento era descolorido, a dor alheia era descolorida, a felicidade era descolorida, tudo era descolorido, e nós tínhamos o poder de colorir tudo, tínhamos o lápis de cor na mão e o arco-íris no coração, nós éramos a geração da cor, competia-nos avivar os tons claros do mundo, iluminar a televisão, mostrar o sangue tal como ele é, exibir as cores vivas do ódio e do amor, e foi isso que fizemos, foi isso que a minha geração fez e fez tão bem e tão mal também que perdeu o norte, a minha geração perdeu o norte, nós todos perdemos o norte e já quase não conseguimos olhar para as coisas que fizemos sem nos arrepiarmos, sem nos nausearmos, já não podemos olhar para o que fizemos sem pensar:

Meu Deus, onde está a nossa terra?

Sem pensar:

Meu Deus, onde está a nossa alma?

Sem pensar:

Meu Deus, onde estamos nós?

Mas temos de suportar tudo, sim senhor, temos de suportar a turba de políticos medíocres que andámos a transportar em andores durante décadas, temos de os engolir em seco, sem água, sem vinho, temos de os engolir a eles e a toda a porcaria que andaram a fazer, temos de engolir em seco toda a porcaria que andámos a fazer, temos de engolir em seco os arquitetos a quem demos rédea solta para destruírem as nossas cidades com a sua hedionda poesia do betão, temos de engolir em seco os senhores da alta finança que nos lixaram a torto e a direito com a magia do dinheiro, temos de engolir em seco o magote inesgotável de comentadores televisivos, toda essa cambada de doutores, especialistas, técnicos e peritos que nos iludiram e continuam a iludir com as suas conversinhas hipnóticas sobre a explicação do mundo e, por fim, temos de dizer:

Bem feito, nós merecíamos isto!

É tudo o que temos a dizer:

Bem feito, nós merecíamos isto!

E se por acaso olharmos para trás, há de nos saltar as lágrimas perante a memória dos tons claros daqueles tempos e se persistirmos no olhar para trás, antes de nos transformarmos em estátuas de sal, haveremos de perceber que, afinal, nada muda jamais, nem a natureza das coisas, nem o sagrado que há nelas, pois o tempo passa e nunca deixa de haver tempo e o espaço é constante, esteja cheio ou vazio, e a necessidade de salvação é um estado permanente do ser que só o larga com a morte.

Posto isto, regresso a Frei Lourenço da Ressurreição, que, lá no longínquo século XVII, entre muitas coisas atinadas, contava que quando não cumpria os seus deveres, se limitava a confessar as suas faltas dizendo a Deus: Se me deixares entregue a mim próprio, nunca me emendarei; tens de ser Tu a impedir as minhas quedas e a corrigir as minhas faltas. E depois disto, dizia ele, não voltava a preocupar-se com o assunto.

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