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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

24/04/2026 08:00

O lugar da solidão é insubstituível, meus amigos. Podem ter a certeza. O lugar que ela ocupa na alma da gente fica cativo para sempre, é vitalício. Oiçam o que vos digo: Há qualquer coisa na solidão que está para além da própria solidão, algo que não se resume à falta de companhia e de afeto e de sexo – embora muitos julguem que a solidão é apenas isso. Há na solidão uma sombra que nenhuma luz ocupa, nenhum espelho reflete, nenhuma palavra revela. E – digo-vos mais – nem mesmo a Ciência, que ameaça descobrir tudo a toda a hora, será alguma vez capaz de conhecer e esmiuçar na totalidade essa presença misteriosa em nós – a presença da solidão. Em parte, ela é a marca de água da nossa alma.

– Os homens passam, mas não são felizes!

Ouvi dizer isto há dias na rua. Alguém, à conversa com outra pessoa, disse isto em alto e bom som, clarinho como água da chuva:

– Os homens passam, mas não são felizes!

E eu, que também ia a passar, pensei que não ser feliz é diferente de ser infeliz, é outra coisa, mas certamente implica morrer um pouco cada dia. Tal como acontece com a solidão. Depois, perdi-me no pensamento e andei às voltas na cidade, para cá e para lá, como um tonto. Esta cidade é tão pequena e circular! Às vezes, é mesmo mais pequena e circular do que o espaço que o meu corpo ocupa nela!

Foi então que me lembrei do meu velho amigo Zaqueus M. Ribeiro, que é sociólogo de formação e louco de natureza. Para dizer a verdade, não sei se ele é meu amigo ou se é uma personagem criada por mim, um decalque do meu ser, um alter ego, estão a ver? Seja como for, o certo é que o gajo anda a investigar há vários anos os passos dos sem-abrigo na cidade, no pressuposto de que ao caminharem à toa pelas ruas desenham letras e transmitem mensagens sobre o destino da Humanidade.

O sociólogo Zaqueus M. Ribeiro está a preparar uma tese de doutoramento sobre o tema, uma obra monumental, diz ele, que depois vai defender na Universidade da República Insular de São Barnabé, que como todos sabem – já o disse várias vezes – é a Região Autónoma da Madeira virada do avesso e posta a arejar ao sol para lhe tirar o mofo.

Por exemplo, se um desses esfarrapados que dormem ao relento dá uma volta completa a uma praça, regressando ao ponto de partida, significa que estamos perante um “O” ou um “Q”; se vai ao fundo de uma rua e volta para trás, isso é um “M”; já se, pelo contrário, vai só até meio da rua, então é um “N”; se sobe uma rua e desce por outra, isso pode ser um “V” ou um “A” ou um “U”; se caminha aos ziguezagues, estamos perante um inquestionável “Z” ou um “S”; e assim por diante, et cetera e tal, até compor o alfabeto inteiro.

A tarefa do sociólogo Zaqueus M. Ribeiro não é nada fácil, diga-se de passagem, mas ele já conseguiu reunir várias frases completas, ainda que enigmáticas, tendo em conta que se referem ao destino da Humanidade, como por exemplo “Quem ama Roma”, ou “Um vago feio”, ou “Duas vacas ao sol”. Também se depara, vezes sem conta, com a palavra “Om”, o que lhe incutiu um certo interesse pelo budismo, e ainda com a palavra “Omo”, circunstância que o levou a fazer investigações sobre aquela marca de sabão e sobre a composição do sabão em si.

Agora, a sério: O importante é não morrer ainda. O importante é acreditar na maravilha de cada dia, venha lá a tristeza que vier atrás dela, venha lá a solidão que vier com ela. O importante, meus caros, é ir para casa e dizer Amo-te a quem está em casa, mesmo que o vazio paire sobre a declaração, mesmo que o amor não tenha explicação. Sim, o importante é ir para casa e abraçar quem lá está e nos ama, mesmo com o Mundo a desmoronar em direto na televisão, mesmo com a miséria a subir sem travão, mesmo com o sonho já posto no caixão. O importante é avançar sem medo, sem inveja, sem maldade, nem que seja para trás. O importante é acreditar sempre que hoje será o melhor dia das nossas vidas, mesmo que venha a ser o pior de todos.

E o resto – como sabem – é silêncio...

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