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Artigo de Opinião

25/04/2026 08:00

Hoje não atendi o telefone.

Não foi por falta de tempo nem por distração. Vi o nome, reconheci a insistência, e deixei tocar. Durante aqueles segundos, não fiz nada, e foi precisamente aí que senti qualquer coisa próxima de liberdade. Não a que se celebra nas ruas, nem a que se escreve em letras maiúsculas nos livros de História. Uma outra. Mais pequena. Quase invisível. A liberdade de não corresponder.

Crescemos a acreditar que a liberdade é um acontecimento: uma data, um feito coletivo, um momento que muda tudo de uma vez. E é verdade; mas há uma outra, menos épica e mais difícil de reconhecer: a que se decide no íntimo, sem testemunhas, sem aplauso. A que se exerce quando ninguém está a ver. Uma liberdade que surge como um ratinho que vai construindo o ninho dentro de nós.

Tantos antes de nós ousaram refletir sobre essa liberdade, ainda que, de alguma forma, pudessem ser olhados com desprezo ou estranheza ou espanto. Quando Albert Camus falava da necessidade de imaginar Sísifo feliz, talvez estivesse a apontar para isto, para a possibilidade de escolher a forma como habitamos a nossa própria vida, mesmo quando ela parece repetição, peso e rotina. Uma dor minúscula que se instala em partes da carne que desconhecemos; uma dor que se torna crónica e para a qual não há remédios.

E talvez seja isso que continuamos a procurar. A liberdade de sair de um lugar onde já não cabemos. De nos despedirmos de um trabalho que nos esgota, mesmo quando tudo à volta nos diz para ficar. A liberdade de mudar de cidade, de casa, de horizonte, não por coragem épica, mas por uma vontade que deixou de ser silenciosa e passou a transbordar. A liberdade de escolher o sossego à correria. De preferir uma manhã lenta a uma agenda cheia. De dizer que não, mesmo quando esperam que digamos que sim. A liberdade de escolhermos o mais instável, que exigirá foco e disciplina, mas que permitirá aquele ratinho interno continuar a construir a sua mansão.

Há também uma liberdade mais difícil: a de aceitar a incerteza. Sobretudo através do heterónimo Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego”, Pessoa mergulha na instabilidade da identidade e do sentido. Há uma espécie de rendição lúcida ao facto de não sabermos quem somos nem para onde vamos e, paradoxalmente, é aí que surge uma forma de liberdade: existir sem a obrigação de uma certeza fixa. Escolher também é perder. E, talvez por isso, tantas vezes hesitemos.

E depois há o corpo. O corpo que decide antes das palavras. O corpo que recua, que se fecha, que respira fundo antes de sair. Hermann Hesse construiu personagens que partem, que abandonam e que procuram, como se a única fidelidade possível fosse a si próprios.

Quiçá a liberdade seja isto: uma sucessão de gestos pequenos, quase impercetíveis, que vão desenhando uma vida mais próxima de quem somos. Não têm cravos. Não têm multidões. Não entram nos livros. Mas são decisivos. Porque há escolhas que não mudam o mundo: mudam-nos a nós. E, por vezes, isso é o mais próximo que chegamos de uma revolução.

Hoje não atendi o telefone. E ninguém deu por isso.

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