Começou, esta semana, o julgamento dos quatro energúmenos que violaram uma incauta jovem e publicitaram a vileza nas redes sociais. Muito se diz e muito se critica quem diz, quem não diz e quem diz o que ofende a ortodoxia vigente. O que me parece faltar é a tão profiláctica como didáctica discussão em volta do que aconteceu, do que levou àquele desfecho traumático.
Começando pela vítima — que ninguém se engane: é a vítima —, eu uma miúda de 16 anos ainda em fase de maturação do córtex pré-frontal e de desenvolvimento da personalidade. Esta jovem imatura cometeu um ingénuo erro cheio de incúria. Uns dirão que “se pôs a jeito”; eu direi que cometeu um erro cuja terrível consequência é castigo excessivo, numa ordem de grandeza demasiado grande para quantificar, quanto mais justificar.
Quem disser que ela não cometeu erro nenhum presta um mau serviço aos adolescentes que devem ver neste caso um exemplo do mal a que se expõem todos os dias. Quem disser que ela estava a pedi-las não faz mais do que ser tão execrável quanto injusto, além de adicionar dor ao castigo exageradamente desumano que ela já sofreu.
Quanto aos quatro energúmenos que abusaram da incúria da criança, animais como todos somos, em fase final de maturação da personalidade, cometeram actos próprios dos sociopatas que todos somos até dominarmos o monstro que há em nós. Até se podem explicar — não desculpar — alguns dos actos destes cobardes com o frenesim hormonal, ou um comportamento de manada e outras coisas inerentes à nossa condição animal. Ninguém quer, ou permite, que se admita isto com medo de minimizar a gravidade da tortura vitalícia que estes biltres infligiram a outro ser humano, mas não admitir este lado negro do animal que somos à conversa serve apenas para esconder o monstro, não para o matar, ou sequer o dominar. Mas estes vis indivíduos fizeram mais do que ceder à manada, ou deixar-se levar pelo frenesim.
Houve um plano, frio e calculado, que enganou a incauta vítima e a levou à cova de três lobos extra. Este plano, este logro, não se explica com o calor do momento, mas com falhas de carácter graves. Como se isso não bastasse para nos pintar um retrato mefistofélico destes energúmenos, ainda ficamos a saber que violaram a vítima mais uma vez, expondo-a e ao seu martírio de forma pública, como se de um putrefacto troféu para os seus inchados e ignóbeis egos se tratasse. Nojento.
Todos somos capazes de coisas horríveis. Todos somos monstros em potencial. Todos temos armas que, usadas de forma eficaz e sem consideração pelos estragos causados, podem destruir o próximo. O mais pacífico dos indivíduos é aquele que, provido de grande capacidade de destruição, escolhe não o fazer. A vida tem-me mostrado que são os mais fracos os mais dispostos a usar todo o arsenal destrutivo à sua disposição.
Que não haja dúvida neste caso arrepiante: por mais descuidada tenha sido a vítima, nada justifica o castigo perene que lhe infligiram. Nada. Que não haja, também, dúvida de que, por mais que se possam explicar as acções dos execráveis perpetradores, não se podem desculpar. O uso de uma situação de força para destruir outra pessoa — seja quem for — não é nada mais do que abominável.
Descarregado o meu peito, quero pedir ao leitor uma só coisa — que não é pequena, admito. Ponha-se no lugar da vítima, sofra com ela. Mas ponha-se também no lugar dos monstros; veja-se neles e lembre-se de respeitar, para domar, o poder que tem sobre o próximo.