Recebi um recado: nunca mais escreveste uma crónica? É verdade, sim senhora. E, de repente, pus-me a pensar sobre o assunto e, tendo regressado do Porto Santo e deixando de fazer sentido relatar o quotidiano na ilha dourada, interroguei-me: irei escrever sobre o quê?
Eis-que, e inspirando-me em alguns dos cronistas que mais admiro tais como Lobo Antunes, Vera Lagoa, Clarice Lispector entre outros, resolvi assumir a minha condição de memorialista e assim, munida de boas intenções, retomarei estes escritos, procurando não a verdade (injusta e temerosa missão), nem o dogmatismo (triste e tola incumbência), mas apenas dar a conhecer momentos e pessoas do antigamente, guiada pela emoção e pelo prazer e avisando desde logo que a isenção e a criatividade serão as minhas bússolas. O resto, será o que o destino destinar. Apenas.
Vem tudo isto a propósito de gostar de anonas e de, há dias, à hora do almoço, ter comido metade uma anona que tinha nada mais, nada menos, do que 45 caroços. Sim, contei-os antes de os jogar para o lixo, embora me tenha ocorrido que poderia guardá-los para jogar ao loto. A minha avó guardava os feijões; não vejo por que não poderia substituir feijões por caroços de anona. Até eram bonitos, marron (podia ser castanho, mas a palavra marron carrega em si um je ne sais quoi mais estético!) e ligeiramente angulosos.
Porque o nosso tempo é um tempo de fragmentos, tudo isto acabou por me transportar à infância – aquela flor sem tempo – e, inevitavelmente à anoneira que havia no quintal da casa da minha avó. Robusta, silente e fiável, esta árvore dominava este espaço exterior, onde muita da vida de casa decorria. Era perto do tronco onde dormiam os cães durante a tarde, sobretudo no pico do calor. Era ali que se pendurava o rádio de pilhas que transmitia a música pedida e a radionovela que a minha avó e a minha tia seguiam religiosamente. Era também ali que se bordava garanitos, cavacas ou caseado ou se compunha a tela, copiando o desenho que servia de modelo. Eu, que jamais tive jeito para trabalhos de agulha, ocupava-me em separar os negalhos por cores, fossem eles da linha para o bordado ou das lãs para a tela. De vez em quando, davam-me autorização para encher, isto é, preencher o fundo da tela, uma operação quase mecânica e feita sempre com a mesma cor. E a moça aqui, calaceira (era assim que me chamava a minha avó) lá cortava um fio de lã o mais comprido que pudesse com o objectivo de aviar depressa. Conclusão, a lã, por ser demasiado extensa, ao entrar nos buraquinhos, prendia, fazendo uns nós que me obrigavam não só a cortá-la como a desfazer os pontos já dados, que obviamente ficavam mal feitos e não passariam no controlo de qualidade da agente, na casa Americana. Ali também eu praticava a leitura, lendo em voz alta os textos dos livros da primária e um ou outro postal que vinha da Austrália com uma nota dentro que a minha avó me mandava imediatamente guardar na gaveta do aparador.
Há coisa de dois anos esvaziamos a casa. Deixou de estar habitada porque a minha tia Helena, a última inquilina, partiu para a derradeira viagem. Roupas, móveis, utensílios de cozinha, papéis, fotografias e toda a “tralha” de várias vidas ainda ali se encontravam, testemunhando a filigrana de um quotidiano, agora despedido de propósito. Porém, a anoneira, velha e abandonada a si mesma, apresentava-se carregada de seu fruto. Olhei-a com o vagar da saudade dorida e senti o eco das palavras de Gabriela Llansol: em nenhum sítio há uma geografia necessária, se não for jubilosa.