Muito se discute sobre a crise do Serviço Nacional de Saúde. Os problemas são vários: urgências sobrelotadas, listas de espera sem fim e dificuldades na contratação de profissionais, além da crescente pressão sobre as instituições do ecossistema da saúde. No entanto, o debate muitas vezes permanece fragmentado, sem uma compreensão abrangente do problema. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) não enfrenta apenas uma crise financeira ou de gestão; enfrenta, acima de tudo, uma crise de visão estratégica.
Continuamos a debater a saúde como se fosse possível modernizar estruturas sem valorizar as pessoas, ou como se fosse viável exigir qualidade nos cuidados num sistema em que a informação ainda é, muitas vezes, fragmentada, lenta e pouco eficiente. Quero ser claro e direto neste ponto: o futuro do SNS depende de como o país consegue integrar dois eixos essenciais - a valorização dos profissionais e a modernização inteligente dos sistemas de informação.
Um sistema de saúde forte depende de profissionais motivados e valorizados. Médicos, enfermeiros, técnicos e outros profissionais de saúde não são custos secundários, são o núcleo estratégico do sistema. São eles que asseguram a continuidade do cuidado, a segurança, as decisões clínicas e o cuidado humano. Desvalorizá-los ou ignorar a sua sobrecarga compromete a sustentabilidade do SNS.
Por outro lado, não se pode ignorar a fragilidade tecnológica dos sistemas de informação que prevalece em muitos contextos clínicos. Mesmo no século XXI, é comum a duplicação de registos, a repetição de exames (realizados no setor privado e repetidos no setor público, ou vice-versa), dificuldades no acesso rápido à informação clínica e uma comunicação deficiente entre diferentes plataformas e níveis de cuidados. Esta situação vai além do aspeto operacional, é uma falha organizacional com impacto direto na eficiência, na segurança do paciente e na qualidade das decisões clínicas.
Um sistema de informação que não comunica, que não integra nem acompanha o cidadão durante o seu percurso assistencial, não só é ineficiente, como também prejudica o cuidado. Quando isso ocorre, os profissionais deixam de receber suporte tecnológico e passam a ser consumidos por ele, perdendo tempo, energia e capacidade clínica em tarefas que deveriam ser automatizadas, simplificadas e focadas na utilidade dos dados em saúde.
Portanto, é importante rejeitar uma falsa dicotomia que frequentemente contamina o debate político, nomeadamente, a noção de que é preciso escolher entre investir em profissionais ou em tecnologia digital. Esta separação não faz sentido. Valorizar os profissionais e implementar a modernização tecnológica são aspetos que se complementam. Um profissional bem valorizado, inserido num ambiente organizacional estável e apoiado por sistemas de informação eficientes, toma melhores decisões, trabalha com maior segurança e oferece um serviço de maior qualidade. Por outro lado, um sistema que não consegue atender a estes dois aspetos tende a gerar desgaste, ineficiência e, acima de tudo, insatisfação.
Mais do que ações isoladas, o SNS precisa, por isso, de uma reforma baseada em inteligência estratégica, reconhecendo que a dignidade no trabalho em saúde e a gestão qualificada da informação clínica são fundamentais para uma modernização real. Concentrar-se apenas em infraestruturas visíveis, sem valorizar as pessoas e assegurar uma interoperabilidade eficaz, resultará sempre numa solução incompleta.
Modernizar o SNS vai além da ampliação da sua estrutura - trata-se de melhorar o cuidado que o sustenta. É reconhecer que a inovação depende de profissionais comprometidos e valorizados. É compreender que a tecnologia só cumpre a sua função quando apoia o cuidado, em vez de dificultá-lo.
No fundo, a questão é simples: um sistema de saúde não será verdadeiramente moderno se continuar a sobrecarregar os cuidadores e a desperdiçar o potencial dos dados de saúde que produz.