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Artigo de Opinião

Subdiretor JM

18/04/2026 08:00

A mobilidade - ou a gritante falta dela - permanece teimosamente no topo das preocupações dos madeirenses. O discurso político repete-se, recheado de anúncios, promessas, queixas e reivindicações de conquistas.

Mas quando se desce do plano das intenções e do diálogo para o da realidade concreta, o cenário é outro e bem penalizador para quem vive nas regiões autónomas.

Os exemplos recentes da quadra pascal são elucidativos. Famílias a pagar cerca de 400 euros por trajeto entre Lisboa e o Funchal, o que significa um custo imediato a rondar os 800 euros por uma viagem de ida e volta. O reembolso posterior, limitado a 200 euros por percurso ao abrigo do subsídio de mobilidade, deixa um rombo significativo no orçamento familiar. No exemplo dado, mais de 500 euros ficam irremediavelmente a cargo do passageiro.

Falamos, portanto, de quantias que não podem ser encaradas como um mero pormenor. E isso acaba por dar razão a quem entende que as alterações recentemente efetuadas visam sobretudo propósitos economicistas. Porque, desta forma, é óbvio que os madeirenses viajarão menos e o Estado será chamado a apoiar menos. Se a estratégia é essa, parabéns, cortaram as asas a quem vive nas ilhas.

Mas esta orientação é particularmente cruel no caso dos estudantes deslocados. Muitos foram simplesmente impedidos de regressar à Madeira na Páscoa, não por falta de vontade, mas por incapacidade financeira. Enquanto isso, colegas de outras regiões do país deslocaram-se sem obstáculos de maior, expondo uma desigualdade territorial que persiste e se agrava.

Aparentemente alheado da realidade presente, o debate político projeta-se no futuro e no hipotético aumento do preço das viagens caso o teto máximo seja abolido. Essa é, talvez, a maior contradição, centrar a preocupação em quem nos visita e não em quem cá vive.

Crise silenciosa entre os jovens

Se na mobilidade o problema é visível no bolso, na violência no namoro entre jovens o dilema é muitas vezes silencioso e inquietante.

Os dados divulgados pela UMAR ao JM são difíceis de ignorar. 70,5% dos jovens madeirenses admite já ter sofrido algum tipo de violência no namoro. Portanto, não reportamos casos isolados, nem desvios pontuais, falamos, isso sim, de um padrão preocupante.

Este retrato devia provocar mais do que preocupação, devia gerar indignação coletiva. Porque revela falhas que vão muito além do comportamento individual. Há aqui um problema de educação, de cultura relacional, de normalização de comportamentos abusivos que parecem estar a ganhar terreno.

A isto soma-se outro dado igualmente perturbador, como é a média de dois casos de violência doméstica por dia na Região, como evidenciou o JM. Não são apenas estatísticas, são sinais de um tecido social sob pressão.

Num contexto em que tanto se fala de progresso, inovação e desenvolvimento, estes indicadores expõem uma realidade paralela. Evoluímos em tanto em tão pouco tempo, mas estamos a falhar naquilo que sustenta qualquer sociedade, como o respeito, a empatia e a qualidade das relações humanas.

Ignorar este problema é um erro grave. Porque o que está em causa não é apenas o presente destes jovens, mas o tipo de sociedade que se está a formar.

Soares não esconde o óbvio

As declarações de João Soares ao Jornal durante a semana que está prestes a terminar introduzem um elemento raro no debate político, como é a capacidade de autocrítica.

Ao afirmar que a ausência de alternância política na Madeira durante décadas não pode ser atribuída apenas a quem governa, mas também à fragilidade da oposição, em particular do Partido Socialista, o histórico dirigente toca num ponto sensível.

Durante demasiado tempo, o discurso político na Região tem assentado numa lógica de responsabilização unilateral. Quem governa é criticado, mas raramente se exige à oposição que explique as suas próprias falhas, a falta de estratégia ou a incapacidade de comunicar com o eleitorado.

Ao trazer essa reflexão à Madeira, Soares também está a elevar o nível do debate. Porque uma democracia saudável não se constrói apenas por uma alternância regular dos órgãos de poder, exige alternativas credíveis. Reconhecer responsabilidades internas não é sinal de fraqueza, mas de maturidade política.

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