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Artigo de Opinião

Consultor de Políticas

17/04/2026 08:00

Perante a polarização de ideologias políticas e votos de protestos que vemos hoje em dia, é necessário relembrar algo importante. Os votos nos extremos não são atos de maldade, mas sim o grito de quem se sente encurralado com as dificuldades socioeconómicas atuais e procura nos extremos uma saída, mesmo que a solução prometida seja irrealista.

Há 10 anos, o Reino Unido (RU) votou no referendo a favor de deixar a União Europeia, por uma pequena margem vencedora de cerca de 52%. Após décadas de construção do projeto europeu, este acontecimento sem precedentes abalou toda a União Europeia, relembrando que, apesar do mérito da integração europeia, não há garantias que o sucesso seja permanente. Por detrás do resultado do referendo, podemos responsabilizar a campanha política de Nigel Farage ao fomentar o descontentamento com a UE, ou até mesmo a tendência do Reino Unido em se diferenciar dos outros Estados-Membros desde a sua adesão. Contudo, a tese potenciada por Andrés Rodríguez Pose, um académico na área de Geografia Económica, mostra uma vertente muitas vezes ignorada.

Invoca-se assim a hipótese da “geografia do descontentamento”. Num exercício de mapear os padrões de voto a nível local e regional, podemos ver uma clara sobreposição entre os votos pro-Brexit e as regiões no RU que enfrentam maiores problemas socioeconómicos. Ou seja, os votantes que apoiaram o Brexit habitam em regiões menos dinâmicas, que recebem menor atenção da decisão política e subsequentemente, recebem investimentos públicos abaixo do necessário. Em contrapartida, os que se opuseram ao Brexit, encontram-se maioritariamente nas áreas mais dinâmicas do RU, com maior crescimento económico, melhores serviços públicos e encaradas como os motores económicos do país, como no caso da cidade de Londres em que 70% da população deliberou ficar na UE.

Nos dias de hoje, esta lição importantíssima parece cair no esquecimento. A tendência europeia em canalizar desproporcionalmente os recursos para regiões que já estão na liderança tem vindo a crescer. A proposta orçamental da UE para os próximos anos é claramente geopolítica, com foco no que se está a passar no mundo fora, mas em contrapartida, não olha para dentro e negligencia a importância da coesão territorial e estabilidade política. Não há falta de avisos, dado que vemos o fortalecimento de partidos anti-UE pela Europa fora, como no caso da Hungria, na Polónia (agora em mudança), bem como outras forças políticas a ganhar impulso na França e Alemanha. Não precisamos de olhar apenas para o continente europeu; o próprio caso da Região Autónoma da Madeira na primeira volta nas eleições presidenciais reflete estes padrões de voto de revolta. O descontentamento dos habitantes é um risco real subjacente a decisões políticas que privilegiam as capitais, grandes cidades, centros urbanos em detrimento dos restantes territórios. É importante mencionar que os cidadãos que optam por este voto divergente e mais extremo não devem ser alienados pela sua escolha. Trata-se de pessoas que se sentem deixadas para trás, em zonas estagnadas e sem apoio público à vista. Esta resposta a anos de inatividade acaba por ser interpretada como uma opção que poderá alterar o sistema e mudar o status quo.

Ao concentrar investimentos em territórios já ricos e avançados, Bruxelas estará a agravar as desigualdades na Europa. As regiões que estão já na liderança serão as que mais irão beneficiar das novas prioridades de competitividade, defesa e autonomia estratégica. Isto seria um desperdício do potencial das restantes regiões que, com o apoio necessário, poderiam servir os objetivos europeus e melhorar os padrões de vida dos seus cidadãos. O crescimento somado de todas as regiões a progredir será sempre muito superior ao crescimento isolado de meia dúzia de metrópoles. Ignorar isto é alimentar a próxima vingança nas urnas.

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