A Insígnia Honorífica ‘50 anos da Autonomia’, prevista na Proposta de Decreto Legislativo Regional – PLM/XV/2026/206, traduz uma intenção que merece inequívoco reconhecimento: assinalar os cinquenta anos da Autonomia da Região Autónoma da Madeira através de uma distinção formal é um gesto politicamente justo, historicamente oportuno e institucionalmente digno. A consagração de méritos cívicos, profissionais e institucionais, associada a tal efeméride, inscreve-se na melhor tradição das ordens honoríficas, cuja função é cristalizar, de forma visível, a memória de um percurso coletivo.
Todavia, entre a nobreza da intenção e a execução material da insígnia abre-se um abismo de gosto, de cultura simbólica e de consciência histórica que não pode ser ignorado.
A descrição constante do diploma e o modelo apresentado, no site da ALRAM, revelam uma peça que, longe de se integrar na tradição falerística portuguesa, parece antes inspirada numa gramática gráfica própria de eventos promocionais ou campanhas institucionais efémeras. O que deveria ser perene surge como transitório; o que deveria ser solene apresenta-se como leviano.
A medalha que corporiza a Insígnia Honorífica ‘50 anos da Autonomia’, com o seu cromatismo saturado, composição agressivamente contemporânea e iconografia de matriz publicitária, não honra o conceito de distinção honorífica, antes compromete-o. A tipografia banal, o emblema estilizado dos “50 anos” e a ausência de qualquer disciplina heráldica denunciam uma “estética” utilitária, quando não francamente vulgar. Não há aqui eco de tradição, nem reverência pelas convenções que, ao longo de séculos, estruturaram a linguagem simbólica das condecorações portuguesas.
Tudo sugere uma concepção alheia à cultura heráldica e medalhística, num exercício de impermanência, num produto de design gráfico de consumo rápido. O resultado é uma peça de modernidade estridente, quase desportiva, que poderia facilmente ser confundida com uma medalha de participação em evento patrocinado.
Mais grave ainda, a ausência de uma matriz simbólica coerente constitui uma ruptura com a própria dignidade do ato de agraciar. Uma insígnia honorífica deve expressar ordem, hierarquia e memória; aqui, pelo contrário, encontramos desordem compositiva, ruído cromático e superficialidade iconográfica. Não elevando os seus futuros condecorados.
É difícil evitar um juízo severo: trata-se de um objeto esteticamente indigente, conceptualmente desorientado e, no contexto da falerística portuguesa e madeirense, um corpo estranho. Se o propósito era conferir prestígio e honorabilidade, o desenho escolhido produz o efeito inverso, banalizando e empobrecendo a própria ideia de honra pública.
Em suma, louva-se o diploma que institui a Insígnia Honorífica ‘50 anos da Autonomia’; deplora-se, com veemência, a sua materialização estética. Uma insígnia destinada a celebrar a história não pode apresentar-se como concessão ao efémero.