O universo da adolescência e da juventude prendeu o Rapaz no pequeno ponto onde tinha nascido, cercado de água por todos os lados, no oceano Atlântico, a cerca de 32° 42’ N de latitude e 17° O de longitude, e afastou-o do resto do Mundo. Saiu apenas por três meses, para cumprir parte do serviço militar obrigatório no continente, e esse foi o tempo em que teve mais saudades do mar e até lhe pareceu que a vida não fazia sentido sem ele. Depois, inexplicavelmente, nunca mais voltou a ter saudades do mar, nem mesmo quando se encontra longe dele.
Entretanto, ainda na década de 80, viveu a grande descoberta do sexo e dos labirintos femininos e também o avassalador encontro com as incertezas e os medos do futuro, até que, de repente, chegaram os maravilhosos anos 90.
Logo no início, o senhor João da mercearia desapareceu sem deixar rasto e todas as pessoas que o conheciam, incluindo a família do Rapaz, ficaram boquiabertas e tiveram de inventar mil e uma histórias para explicar o seu inexplicável desaparecimento, mas acabaram por esquecer o assunto ao cabo de alguns meses. O Rapaz encarou o desaparecimento do senhor João da mercearia como uma grande lição de vida – a lição sobre o que nunca se saberá.
Depois veio a moda das camisas com padrão de cornucópias e o Rapaz comprou duas, uma em tons de verde, outra em tons de vermelho. Sempre que as vestia, lembrava-se do quarto do meio em casa do avô, que estava dividido por uma cortina com cornucópias. Atrás da cortina ficava a arrecadação, um mundo grávido de segredos. Um dia, quando tinha sete ou oito anos, encontrou um mapa-múndi no quarto das cornucópias e a partir daí começou a sonhar recorrentemente com países longínquos, até que o sonho da distância passou a ser parte do seu corpo.
O Rapaz viajou com as camisas de cornucópias pelos bares e lugares de festa da cidade e da ilha. O Mundo, o verdadeiro Mundo, permanecia adiado, mas em contrapartida aquele foi um tempo de imortalidade. A firmeza das suas convicções era inquebrantável e a confiança em si forte, fortíssima, a condizer com a barba preta, densa e comprida de todo-poderoso.
Foi nesta altura que conheceu Ismael Arribas, um tipo natural de Angola, que costumava aparecer, à noite, num bar perto do porto que ele também frequentava. O gajo andava sempre com o romance ‘Debaixo do Vulcão’ a reboque, mas não conseguia passar da página 80. Perdia-se na leitura, ficava estuporado e começava tudo de novo.
– Este livro é um continente difícil de desbravar – dizia. – Ainda não consegui afastar-me o suficiente da costa e penetrar verdadeiramente no interior. Mas um dia hei de cruzá-lo de ponta a ponta.
Ismael Arribas bebia imenso, mas passava a maior parte do tempo calado, sem dar sinais de embriaguez, imerso nas misteriosas florestas do seu pensamento. Era magro, muito branco e tinha um olho de cada cor, o direito castanho, o esquerdo verde, o que provocava uma certa inquietação quando se olhava para ele. Tinha vindo para Portugal com os pais meses antes da declaração de independência de Angola, mas nunca dizia nada sobre a sua vida no hemisfério austral, nem uma única palavra. Era como se não tivesse vivido lá. Ou então ficou traumatizado e não consegue falar, pensava o Rapaz, lembrando-se do seu amigo Fernandão, do tempo de escola, que não via há tantos anos. Esse, sim, estava sempre a contar histórias de África.
Um dia, porém, Ismael Arribas disse que estava a escrever sobre a terra natal e procurou entre as páginas de Malcolm Lowry uma folha solta e leu as primeiras frases da sua obra, ainda em rascunho:
Um animal feroz rondava a aldeia há três dias. No primeiro dia, apareceu ao cair da noite e quem o viu foi uma criança, um menino de sete anos chamado Mwana. Ele viu dois luzeiros a brilhar no mato, mesmo à frente da palhota, e apanhou um susto de morte que nunca mais esqueceu. Muitos anos mais tarde, já velho e desdentado, Mwana costumava contar a história aos netos e todos ficavam aterrorizados...
O Rapaz sorriu e, pela primeira vez na vida, percebeu que a parte mais importante do Mundo, a mais rica e abundante, a mais luminosa e encantadora é a que compõe o lugar da infância, independentemente do que lá aconteceu, mas também sentiu que esta descoberta será sempre a mais difícil de concretizar.