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Artigo de Opinião

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação e Mestrado em Gestão

15/04/2026 08:00

Entre perguntas e silêncios, a saúde começa sempre num olhar atento.

A inteligência artificial entrou de forma discreta, mas definitiva, no quotidiano da saúde. Hoje, muitos utentes recorrem a aplicações digitais e plataformas baseadas em algoritmos para procurar respostas sobre sintomas, doenças e possíveis tratamentos. Esta procura nasce da curiosidade, da facilidade de acesso à informação e, muitas vezes, da dificuldade em obter respostas rápidas nos serviços de saúde. Quando a tecnologia começa a ocupar um lugar central nas decisões sobre saúde e doença, torna-se inevitável questionar até que ponto é correto confiar nestas ferramentas.

A inteligência artificial tem demonstrado utilidade em várias áreas da saúde, desde o apoio ao diagnóstico até a análise de exames e a gestão de recursos. A sua capacidade de cruzar grandes volumes de dados permite identificar padrões, antecipar riscos e acelerar processos, contribuindo para maior eficiência dos sistemas de saúde. No entanto, estes sistemas não são neutros nem infalíveis. Funcionam com base em dados previamente selecionados e em critérios definidos por pessoas, podendo reproduzir erros, enviesamentos ou interpretações inadequadas, sobretudo quando aplicados sem enquadramento clínico adequado.

O cuidado em saúde não é um ato automático nem uma resposta padronizada. Resulta do trabalho articulado de equipas multidisciplinares, onde diferentes saberes, experiências e sensibilidades se complementam. Médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais constroem, em conjunto, uma visão mais ampla da pessoa, considerando fatores físicos, emocionais, sociais e culturais. A tecnologia pode apoiar este processo, mas não substitui a escuta, o julgamento crítico nem a responsabilidade humana inerente à decisão em saúde.

Do ponto de vista dos utentes, o acesso facilitado à informação pode representar maior envolvimento e autonomia, mas também pode gerar confusão e ansiedade. A interpretação isolada das respostas fornecidas por sistemas digitais pode levar a autodiagnósticos incorretos, decisões precipitadas e expectativas irrealistas. A confiança excessiva na tecnologia pode ainda fragilizar a relação com as equipas de saúde, afastando o diálogo, a partilha de dúvidas e o acompanhamento necessário.

Neste contexto, a formação assume um papel central. As equipas de saúde precisam de estar preparadas para utilizar a inteligência artificial de forma crítica e consciente, reconhecendo os seus limites e comunicando-os com clareza aos utentes. Ao mesmo tempo, é essencial promover a literacia em saúde e digital junto da população, para que cada cidadão compreenda que a tecnologia pode errar e que não substitui a responsabilidade partilhada no cuidado.

Importa ainda reconhecer que a decisão em saúde envolve confiança, tempo e relação. Nenhum algoritmo consegue substituir o valor do encontro, da palavra dita no momento certo ou da escuta atenta perante a dúvida e o medo. A tecnologia pode informar, sugerir e apoiar, mas a responsabilidade última permanece humana. É neste equilíbrio entre inovação e sensibilidade que se constrói uma saúde mais segura, mais justa e mais próxima das pessoas.

A inovação tecnológica representa uma oportunidade importante, mas exige reflexão ética, prudência e responsabilidade coletiva. Decidir em saúde continuará sempre a depender do encontro humano, da escuta atenta e da confiança construída, valores que nenhuma tecnologia consegue substituir.

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