«Um dia, (...) sempre teremos sido todos contra isto»
Omar El Akkad, no Twiter/X (25.OUT.2023)
Conheço algumas pessoas que se orgulham de ter uma memória fotográfica.
São pessoas que conseguem de recordar com vários detalhes algumas situações que lhes acontecem ou onde estiveram presentes, mesmo que tenha passado muito tempo.
A maioria das pessoas não tem uma memória assim, com tantos detalhes, para todas as situações pelas quais passou. No entanto, quase toda a gente se lembra bem de dias que foram marcantes para si: alguns aniversários de infância e juventude, os dias em que entraram num ciclo de estudos particularmente desafiante, o dia do nascimento dos filhos, dias especialmente bons ou especialmente tristes, como o momento em que souberam do desaparecimento inesperado de alguém que lhes era especialmente próximo.
Mesmo assim, até as pessoas com uma memória prodigiosa falham em alguns pontos, não se lembram da presença de algumas pessoas que estavam, mas “lembram-se” de pessoas que não estavam presentes, objetos trocados, etc...
A memória coletiva funciona de modo semelhante: eventos com grande impacto na comunidade fixam na memória dias que de outro modo seriam banais: A morte de Kennedy, a chegada à Lua, o 25 de Abril, o dia em que o Muro de Berlim caiu, o ataque de 11 de Setembro, a aluvião de 20 de Fevereiro, são exemplos clássicos de eventos que ajudam a fixar imagens desses dias em muita gente.
Isto passa-se porque a nossa memória não funciona como uma máquina fotográfica ou como um filme: a memória é muito influenciada pelas nossas emoções, quer quando foram criadas, quer naquele em que tentamos aceder-lhe, e as nossas memórias são influenciadas, recriadas até, quando voltamos a aceder-lhes. É daí que vem a possibilidade de nos lembrarmos de alguém que não estava numa situação específica (mas que provavelmente esteve numa outra que consideramos semelhante).
Como as emoções têm um impacto tão grande na nossa memória, tendemos a recordarmo-nos também de decisões especialmente difíceis, ou que tomadas com base em valores pessoais e coletivos que, entretanto, foram evoluindo em nós à medida que o tempo passa por nós.
Há ainda a questão do nosso subconsciente que tenta sempre desesperadamente proteger-nos: Quando consideramos (ainda que de forma inconsciente) que algo é especialmente doloroso, perturbador ou que pode afetar a nossa autoimagem, é muito comum que as nossas memórias sejam “reconstruídas” com alterações que diminuam esse possível impacto negativo.
Por este motivo que por vezes, especialmente em situações de conflito, em que alguém tem uma atitude mais brusca ou diz algo de que inconscientemente já se arrependeu, a memória ajusta-se e é comum ouvir-se que “não foi bem assim” ou que “não foi bem isso que eu disse”. Por vezes as pessoas não estão a mentir, é apenas o seu cérebro a reconstruir a memória de modo mais favorável.
É por isso muito comum que, perante um mesmo acontecimento, pessoas diferentes apresentem versões diferentes pelas quais estão dispostas a jurar.
Tal como nas memórias individuais, na memória coletiva também se pode dar este tipo de reconstrução.
Pouco tempo depois da II Guerra Mundial não havia nazis na Alemanha, não havia fascistas em Itália, nem colaboracionistas nos países ocupados pelo Eixo. Tal como, por altura do 1.º de Maio de 1974, subitamente já não havia fascistas em Portugal, ou como depois da queda do Muro tinha deixado de haver comunistas na Europa de Leste.
De um dia para o outro, toda a gente tinha resistido à ditadura ou, no mínimo, sempre teria sido contra aquele estado de coisas.
A propósito das eleições das guerras na Ucrânia, em Gaza e no Líbano ou no Irão, tenho assistido (com agrado, admito) ao aumento do número de pessoas que “sempre foram contra isto”. É um bom sinal.
Como é um bom sinal que, na Hungria, haja subitamente uma mudança de atitude eleitoral, que parece alargar-se às sondagens no resto da Europa. Pode ser que estejamos a chegar a um ponto de viragem de sentido humanista.
Lembremo-nos de Omar El Akkad, e da capa do seu livro «Um dia, sempre teremos sido todos contra isto», publicado recentemente pela Tinta da China: «Um dia, quando for seguro, quando não houver consequências pessoais por chamar as coisas pelos nomes, quando for demasiado tarde para responsabilizar seja quem for, sempre teremos sido todos contra isto».
Espero, de forma otimista, bem sei, que não falte muito para esse dia.