Globalização, o ato de tornar o todo num, será a maneira mais básica de definir o termo. Nos dias que correm este fenómeno está cada vez mais vincado na sociedade, fruto dos avanços tecnológicos que contribuem para a rápida propagação de informação.
Há tempos falei nestas páginas da perda de identidade que estamos a ter e deixei como exemplo os bares, cafés, restaurantes, em que as decorações parecem saídas do mesmo catálogo do IKEA. Este será, provavelmente, um dos aspetos mais visíveis neste mundo cada vez mais globalizado, cada vez mais igual.
Esta falta de identidade cria graves problemas, como uma perda cultural significativa, a que se junta a falta de pensamento crítico. Com a globalização, o pensamento crítico passa para segundo plano, levando consigo a cultura de um povo. O ambiente globalizado que atualmente temos leva a que esse pensamento seja diluído entre outros, imitando-os como trends de TikTok, fazendo com que a crítica passe a ser algo saído do catálogo do IKEA.
Ditadores do IKEA
A edição primavera/verão de ditadores do catálogo do IKEA, apresenta-nos várias propostas. Temos o que deita fora o limite de mandatos, que ele próprio inseriu, o que reúne com todos menos os que interessam, o que foge à justiça, enquanto massacra um novo povo, e o que fecha e abre, abre e fecha, o que não é dele.
Este também é um exemplo da globalização que acabamos por importar o que não importa, incluindo os tiques ditatoriais de outros países. O que fecha e abre, o que não é dele, faz com que a economia global esteja em suspenso, afinal de contas ninguém avisou o homem da importância de estreito onde passa 25% do petróleo mundial, isto a mando de quem massacra um povo, e ainda perguntam-me, “Porquê que te interessas pela política do outro lado mundo?”, ao que respondo, “É a globalização, estúpido!”
Flea - Honora
Há sempre algo de fascinante quando vemos alguém a aventurar-se numa coisa nova. É a curiosidade humana para saber se essa pessoa irá triunfar ou falhar espetacularmente, isso acontece também no meio musical, e o que não faltam são exemplos de falhanço.
Flea, conhecido universalmente como o baixista de Red Hot Chili Peppers, aventurou-se, e ao contrário de muitos seguiu o exemplo de Andre 3000 - membro de um dos conjuntos mais emblemáticos do mundo do hip hop, OutKast, que em 2023 lançou um álbum misturando o New Age e a música ambiente largamente aclamado pelo pública e crítica - neste Honora, um disco que acaba por ser uma homenagem de Flea ao Jazz.
Em “A Plea”, uma faixa repleta de baixo, temos uma fusão entre o jazz, o funk, que Flea tão bem conhece, e o spoken word, lembrando as músicas de intervenção de Gil Scott-Heron, em que é “Peace and Love”, é repetido quase à exaustão durante os mais de sete minutos que compõem este tema.
As colaborações também estão presentes e são de “peso”. Thom Yorke, de Radiohead, empresta a sua voz na canção “Traffic Lights”, em que Flea na sua trompete tenta complementar o ritmo de Yorke. Nick Cave também faz a sua presença sentir numa bela rendição de “Wichita Lineman”, um original de Glen Campbell.
As covers, se é que podemos chamá-las, de bandas e artistas que influenciaram Flea no seu trajeto também estão presentes, com “Maggot Brain” dos Funkadelic, e a surpreendente interpretação de “Thinkin Bout You” de Frank Ocean.
Em “Honora”, Flea mostra ao mundo, o seu mundo e a sua versatilidade ao lançar um dos álbuns mais surpreendentes, e um dos melhores discos de jazz, dos últimos tempos.