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Artigo de Opinião

Professora Universitária

27/04/2026 07:30

Ainda que, segundo as últimas sondagens realizadas pela CNN, a maior parte dos portugueses, cerca de 90%, acredite na democracia como o melhor regime, metade da população sente-se desiludida com a forma como a democracia funciona no país. Os números seguem de perto a tendência europeia, já que em média 58% das pessoas em 23 países sentem-se insatisfeitas com o funcionamento do estado democrático, ainda que considerem que viver em democracia é preferível a viver sob qualquer outro tipo de regime.

As razões para o descontentamento, a nível global, radicam na desconfiança relativamente às instituições, na falta de crédito nos partidos políticos e na ineficácia dos governos. A crise de confiança alimenta a perceção de que tudo está mal e é nessa crise que reside o maior perigo que os inquiridos identificam em relação à manutenção do regime democrático. A corrupção, os extremismos, a falta de informação, as “fake news” e as desigualdades sociais estão, para os inquiridos, nos primeiros lugares das ameaças que a democracia enfrenta.

Se a democracia é entendida como o melhor regime, porque é que metade da população está insatisfeita com o seu funcionamento e o que é que isso pode representar para o futuro?

Hannah Arendt, num texto só publicado numa antologia em 2003, intitulado “Some Questions of Moral Philosophy”, lembra as palavras, anteriores à guerra, de Winston Churchill – “Quase nada do que fui educado a considerar vital e permanente, quase nada de tudo isto ficou de pé. Tudo o que achava ser impossível, e que tinha sido educado a considerar impossível, enfim, tudo isso aconteceu.” – para alertar para o facto de que o que julgamos permanente e vital pode desabar. As poucas regras e normas nas quais baseamos a nossa conduta e comportamento, como as que distinguem o bem do mal, que cremos evidentes, de um momento para o outro podem mudar sem anúncios luminosos, sem grande barulho e sem causar sensação.

As palavras de Churchill eram uma simples constatação, surgiam dos factos. Da facilidade com que determinadas atitudes contra a moral e a ética que conhecia eram aceites, de como em determinados países as decisões fossem mesmo imorais e destituídas de ética e de como, também aqui, não houvesse sinais de clamor ou estardalhaço.

Isto para dizer que a história mostra como podemos encontrar-nos a viver no meio do impossível e só aí ficarmos de boca aberta.

Vamos aos factos. O século XXI começou sob a bandeira da “crise da democracia”, do seu estado de “sofrimento” ou de “declínio”. Os indicadores avançados logo nos primeiros anos da nova centúria apontavam para uma diminuição da credibilidade dos dirigentes eleitos, de descrença na capacidade das instituições democráticas de mediarem entre as necessidades de muitos (com o crescente empobrecimento das classes médias) e as exigências de poucos (seguros de terem poder para influenciar as decisões) e de identificar respostas que respondessem aos interesses da larga maioria.

O desemprego, a falta de habitação, o difícil acesso à saúde e a erosão do bem-estar social, questões ainda não totalmente resolvidas, fazem com que os cidadãos, a espinha dorsal da democracia, comecem a ser minados por respostas fáceis e pelo uso de uma retórica nacionalista e protecionista. Urge, por isso, retomar a política verdadeira, democrática, contrastando e expondo a chamada antipolítica, ou seja, os partidos que se alimentam da intolerância e do ódio contra a política tradicional.

Lembrar a quem hoje não vê os perigos de uma política antidemocrática de quais seriam as consequências não pode, no entanto, ser baseado em modelos antigos como a oposição entre democracia e autoritarismo. É tentador para os cidadãos lidarem com a desilusão adotando posições a favor da tecnocracia e do autoritarismo populista, por isso, há que responder através da simplificação das políticas, da sua transparência e da sua eficácia e rapidez na resposta às necessidades sentidas.

Temos de reaproximar, por isso, quem governa de quem é governado, compreendendo a política como serviço ao próximo. Ou, um dia destes, acordaremos, sem nos sobressaltarmos, num outro regime qualquer.

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